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Crónicas

Doenças do tempo

1. Não é prudente menosprezar o Coronavírus. O vigor da doença, a velocidade do seu contágio, e a destreza da sua adaptação pedem cuidado. Dentro do que a responsabilidade permite, é porém justo que se questione a habilidade do organismo para o espectáculo.

A prática ausência de direitos humanos na China tem sido um bálsamo consolador. Nestas coisas, as autocracias continuam a merecer a mais absoluta confiança, e os números que ali se acumulam são, para os media, uma estatística que pode fugir à verdade, mas nunca ao controlo.

Já os doentes em solo ocidental, ou ocidentalizado, são diferentes. Os suspeitos de infecção são reportados e seguidos como concorrentes de um reality show. Os desmentidos sucedem-se como uma espécie de alívio cómico para o suspense que precede um horror anunciado. As bolsas despenham-se na proporção inversa à credulidade do cidadão, que a candura do medo dispõe para as mezinhas e desinformação.

Sim, o Coronavírus é perigoso. Mas é sobretudo perigoso em potência, por ser desconhecido. O desconhecimento reclama prevenção. E a intensidade da prevenção confunde-se, fatalmente, com a intensidade do risco.

Os meios de comunicação social deleitam-se com essa confusão. O pânico por eles acicatado, e por vezes criado, promove uma atmosfera de emergência, onde curiosidade mórbida, superstição e interesse público se separam por paredes de papel.

A história do Coronavírus prolifera, também, enquanto testemunho de uma fé catastrofista que vai dominando a sociedade ocidental, e que procura desesperadamente por um apocalipse em jeito de prova e expiação para os abismos do capitalismo, da ciência, e da globalização. O mesmo mecanismo operou – lamento – a propósito dos incêndios na Amazónia e na Austrália, das adivinhas de juízo final na tensão EUA-Irão, e do anúncio de que terminara a contagem decrescente quanto à irreversibilidade da acção humana sobre o clima. Pode parecer absurdo, mas só isso explica a cáustica notícia, difundida por alguns jornais, de que as emissões poluentes da China se reduziram em cerca de 100 toneladas de CO2 nas últimas semanas. Como se a pandemia fosse uma espécie de castigo divino, ou uma forma de auto-regulação ambiental.

Não se desprezam as evidências, e muito menos a prudência. Mas convém notar que o Mundo com o Coronavírus – regional, confinado, irracionalmente desconfiado, com tráfico aéreo limitado, controlo fronteiriço, e sem comércio internacional – é muito parecido com aquele a que muitos secretamente aspiram. E que isso também excita, e excita bastante mais do que a ébola, a tuberculose, a malária, e outras doenças que matam mais cruel e indiscriminadamente, mas se detêm perante as muralhas vacinadas do Primeiro Mundo.

O terror é a desculpa, de que não precisávamos, para perseguir a doença como Hitchcock a uma loura. A lente do realizador representava, claro, uma ameaça, mas servia também a tensão dramática de uma ficção.

No Coronavírus há vertigem e há risco. Mas há também cinema. Este folclore parece a doença do momento, mas é também uma doença do tempo. A prevenção recomenda-se, sim. Mas em ambos os casos.

2. Mário Pereira demitiu-se da Direcção Clínica do SESARAM, e obrigou a reescrever meio texto. Ainda bem.

Atribuíram-se várias origens ao imbróglio gerado pela sua nomeação. Entre todas, a menos discutida é a mais óbvia, que é a de o cargo de Diretor Clínico não se prestar a nomeação política. A nomeação por pares ou órgãos independentes é de resto a regra instituída na melhor parte da União Europeia. Em Portugal, o costume de consensualizar a nomeação entre o corpo clínico tem sido o módico de decência que nos poupa aos escândalos permitidos pela lei.

A razão para esse desvio à regra da nomeação é tão grosseira quanto evidente: não há votos que paguem ou justifiquem a nomeação um incompetente.

Não será o caso de Mário Pereira, uma figura simpática que não merece – quem mereceria? – o descrédito. Só que esta não é uma questão de competência, mas de princípio. E o teatro da sua nomeação foi o exemplo acabado de um mau princípio que é também uma doença do tempo: a aristocracia representativa.

O aristocrata julga que o voto não é o fundamento do poder político, mas uma forma de indigitação dos seus titulares. Depois de eleito, ou melhor, depois de ver a sua superioridade reconhecida pelo voto, o aristocrata age com carta branca. Julga que a democracia representativa é mais representativa do que democrática, e que lhe é lícito servir-se do mandato como de um buffet, não mais respondendo aos seus eleitores e às suas expectativas. É uma ideia muito siamesa do populismo. Se este busca o governo pelo Povo e independentemente das instituições, a aristocracia procura o governo pelas instituições e independentemente do Povo.

Os 4% do CDS consolidam uma maioria, mas não são a fonte dessa maioria. Nada justifica que o partido se alcandore a tanto cargo. A aristocracia já escolheu o Presidente da Assembleia à revelia dos eleitores. Não pode, também, escolher o Director Clínico. No limite, é uma questão de pudor. Mário Pereira teve-o. Honra lhe seja feita.

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