Crónicas

Padre Martins

Admiro sobretudo a gestão do seu silêncio que me conquistou e tem conquistado muitos daqueles que o ouvem, de todos os quadrantes políticos

A revogação da suspensão ‘a divinis’ do Padre Martins Júnior foi uma das boas novas deste ano. Suspenso há mais de quatro décadas, mas que manteve as funções na paróquia da Ribeira Seca. Quis o destino que o nosso caminho se cruzasse, passados os mesmos 40 anos. O projecto de que tanto me orgulho trouxe-me até Machico, berço cultural da Madeira, terra de gentes humildes e trabalhadoras que tão bem me tratam e onde implementámos o primeiro Atlanticulture Center. Não deixo também de constatar como curiosidade que foi ordenado padre no dia do meu aniversário. No 15 de Agosto.

Martins Júnior foi também presidente da Câmara Municipal de Machico pela UDP (1989) e pelo PS (1993) e deputado na Assembleia da Madeira. Confesso que toda a história parece retirada de um filme, e nunca até agora havia percebido bem o seu alcance. Segundo reza a história, o bispo Francisco Santana retirou-lhe, em 1974, a paróquia da Ribeira Seca por se ter recusado a entregar a chave da igreja. Tal situação levou à suspensão ‘a divinis’, em 1977. Contudo, desafiando a diocese, o sacerdote continuou a celebrar a missa porque “o povo assim quis”, conforme disse à agência Lusa em 2016.

Em 2010, a diocese do Funchal também proibiu a visita da imagem peregrina de Fátima à igreja da Ribeira Seca pelo facto de a mesma estar “indevidamente ocupada”, por um padre suspenso. Quando tomou conta da diocese do Funchal este ano, o novo bispo declarou que ia dar atenção aos “casos particulares e pessoais” existentes na igreja madeirense. “Hão de ser tratados particularmente e pessoalmente”, disse então. Eu, que nasci e cresci em Fátima, não me revejo em “proibir” seja quem for o acesso a Fátima... Eu que sou aliás defensor das liberdades e da democracia acho que devemos respeitar e honrar as vontades do povo mas infelizmente isso poucas vezes acontece. Por essa razão esta revogação parece-me mais do que justa e só peca por tardia. Muito tardia aliás...

Políticas à parte, até porque a sua linha de orientação partidária está muito longe da minha, quero aqui acima de tudo falar do homem da cultura, que apoia com tudo o que tem para que os mais novos tenham acesso às artes, sempre presente (quando pode) em todos os acontecimentos que fazemos, muitas vezes apenas ouve (não vá o caminho sair errado) e quase sempre se manifesta através de uma opinião construtiva e muito apreciada. Admiro sobretudo a gestão do seu silêncio que me conquistou e tem conquistado muitos daqueles que o ouvem, de todos os quadrantes políticos. Assim deveria ser sempre. A sua resiliência e persistência são meritórias e demonstram que os caminhos da fé dependem sobretudo de quem lidera o seu rebanho.

É por essas razões que a festa a que se tem assistido por esta decisão é digna de registo e demonstra bem a forma como é querido e respeitado. Seja na Igreja na Política ou em tantas outras situações da Vida a importância do diálogo, da compreensão mútua e da capacidade de encontrar as melhores soluções para os problemas têm obrigatoriamente que se sobrepor aos egos e aos cargos que muitos ocupam. Num Mundo cada vez mais “autista” são estes exemplos que nos levam a acreditar que nem tudo é mau e que existe um caminho que é possível ser trilhado. Quando as referências são cada vez mais escassas é importante valorizarmos as que ainda subsistem e fazermos de tudo para que se perpetuem no tempo. O meu aplauso por isso para esta decisão e o meu humilde reconhecimento.