Sem dramatizações

08 Mar 2020 / 02:00 H.

Perante um problema que se agiganta a cada dia que passa, o conselho dado pelo presidente do Governo Regional é o de sempre. Invariavelmente Miguel Albuquerque reage apelando para que “não se dramatize”. É assim há já alguns anos. Mesmo quando em causa estão situações que impõem intervenção rápida e decidida. É isso que, em essência, se espera de quem tem como missão governar em nome do povo. Mas o tempo de Albuquerque não é medido pelas prioridades quotidianas. Sem dramatizações, o presidente define a agenda conforme lhe apetece e deixa em suspenso o normal funcionamento de instituições que estão na linha da frente do apoio e suporte à população. À cabeça a saúde, esse problema crónico que atravessa executivos e que padece de muitas mazelas que afectam directamente a qualidade de vida da população.

Já todos percebemos que este XIII Governo Regional dá primazia às nomeações políticas e à satisfação da sua clientela ao invés de colocar, em primeiríssimo lugar, a resolução dos problemas crónicos. O caso do SESARAM é a ponta mais visível do desgovernado ‘comboio’. Veja-se o tempo que se gasta, que se perde, em torno daquilo que deveria ser uma simples nomeação para um cargo eminentemente técnico? Veja-se os pormenores sórdidos que rodearam a exoneração/afastamento do médico imposto pelo CDS. No pântano em que mergulhou a direcção clínica do sistema regional de Saúde, ainda houve (e há) tempo para umas ‘brincadeiras’ de permeio. Mário Pereira anunciou a saída, mas entregou o pedido formal dias depois, não se sabe bem como, não se sabe bem a quem o deveria ter feito. Sem dramatizações e com o coronavírus à porta, sabe-se que o serviço de saúde só trata 30% dos doentes com AVC e que os atrasos nas cirurgias de obesidade, um grave problema de saúde pública, levam os doentes a desistir do tratamento. Estes factos são reais para milhares de madeirenses, para não falar dos outros que desesperam por consultas e intervenções cirúrgicas. Aqueles que, com muito drama e angustia, não têm posses para ir “tratar da máquina ao continente”.

Amanhã os médicos que empurraram o CDS para fora da direcção clínica reúnem-se com o presidente do Governo, doze dias (!) após o pedido feito com caracter de urgência. Veremos que dinâmica e que rumo quer Albuquerque imprimir ao sector. Se terá argumentos para impor uma solução pacificadora, que devolva a esperança aos utentes que dele precisam, ou se sucumbirá uma vez mais à vontade do parceiro de coligação, que se prepara, nos próximos dias, para forçar mais nomeações em lugares de destaque da administração pública. Sem qualquer dramatização nem pudor.

Roberto Ferreira