Discriminações inaceitáveis

29 Mar 2020 / 02:00 H.

“Não é aceitável a discriminação social” das pessoas com coronavírus. O desabafo foi assumido na passada sexta-feira, de forma veemente, pelo secretário regional da Saúde. Pedro Ramos tem toda razão. Mas esqueceu-se de um pormenor. Devia assim ter sido desde o início da tormenta. E deve ser assim a toda a hora, com os que estão de quarentena, com os que tudo fazem para que nada falte aos mais frágeis da nossa sociedade e com os que não têm intervalo para caprichos porque prestam socorro, servem nos supermercados, entregam comer em casa, são voluntários, procedem à recolha do lixo, zelam pela segurança ou dão notícias.

A deplorável discriminação, tal como a intolerância, foi cultivada superiormente. Sabe-se quem deu o mau exemplo, ao exercer pressão sobre os turistas, com atitudes que roçaram a xenofobia, impedindo-os de utilizar de transportes públicos e ordenando a sua expulsão imediata, palavras de ordem que proliferam ainda em grupos de WhatsApp com ligações ao governo regional. A febre é de tal forma contagiante que o presidente da Assembleia Legislativa teve necessidade de lamentar a “inexplicável histeria de alguns de culparem os turistas por todo os males que estamos a passar” no melhor Destino Insular do Mundo, que “tem muitos estrangeiros a viver e vai precisar dos viajantes para recuperar a sua débil economia” e onde não devia haver “indesejáveis”.

“Não é aceitável a discriminação”, como não é aceitável um sem número de atitudes que não matam tanto como o vírus, mas assassinam, de forma igualmente galopante, a dignidade humana.

Não é aceitável que haja dedicados profissionais de saúde fora de serviço só porque houve falhas de material, sempre negadas até ao dia em que se soube do pedido para o uso “racional” de máscaras e fatos.

Não é aceitável tratar como delinquente quem sabe proteger-se ou como irresponsáveis todos os que não podem ficar em casa, por serem necessários à sociedade e desempenharem actividades essenciais que estão previstas no decreto que estipula o estado de emergência.

Não é aceitável tomar decisões muitas delas em cima do joelho, sem acautelar todas as variantes, sem medir consequências e sem ter alternativas.

Não é aceitável que a defesa da saúde dos madeirenses tenda a limitar-se aos que aqui vivem, ignorando os que em Londres ou no Continente tinham viagens marcadas para regressar à terra, entretanto canceladas por ordem do governo regional, pois foram impedidos de embarcar só porque não estão doentes e não têm cunhas.

Não é aceitável propagandear ilusões geradoras de um falso estado de graça e tornar sigiloso o que devia ser público.

Não é aceitável contornar perguntas feitas em conferências de imprensa, ignorar evidências e martelar números, sobretudo depois de Marcelo Rebelo de Sousa assegurar perante o País: “Ninguém vai mentir a ninguém. Isto vos garante o Presidente da República”.

Não é aceitável endeusar líderes, sejam eles quem forem, que mais não fazem do que óbvio. Um Estado que nos leva 40 a 50% dos rendimentos todos os meses só tem que devolver à procedência o muito que tira em cada instante.

Não é aceitável que percamos referências e valores só porque o maldito vírus deu cabo dos afectos. Podemos continuar a dar bom-dia, a ser delicados no trato e a responder sem ofender.

Não é aceitável que se faça política com a pandemia e que nesta altura as redes sociais, autênticos abrigos de muita gente perdida, estejam infectadas, cheias de perfis falsos com tempo de sobra para espalhar a voz do dono.

Não é aceitável que em meia dúzia de dias gente com coluna tenha sido capturada, porventura anestesiada com promessas de validade duvidosa, sem horizontes temporais que não sejam o dia 20 de cada mês, o próximo trimestre e depois o irremediável “seja o que Deus quiser”.

Não é aceitável o estatuto de excepção de que goza o ‘lobby’ do betão, e que salvo exemplos dignos de registo, não acautelou a segurança dos seus trabalhadores, especializando-se agora em fintar as autoridades policiais.

Não é aceitável que qualquer governo discrimine, dê a uns e ignore outros, demore a decidir e contribua para as desigualdades sociais ao deliberar de forma conveniente para que uns possam continuar a facturar, enquanto outros definham.

Não é aceitável que o coronavírus seja aproveitado pelos oportunistas do costume para salvar a pele. Toda a gente já percebeu que a falta de liquidez nalguns cofres, dos públicos aos privados, não é de agora.

Não é aceitável que um governo a trabalhar “sob pressão”, como nos confidenciou Miguel Albuquerque, insista em brigas geradoras de ódios. A Madeira perde tempo se continuar à espera que Lisboa atenda chamadas ou diga o que fazer. O Representante da República que trate do assunto.

Não é aceitável que a admissão em lares tenha sido feita sem testes, que os guardas prisionais na ilha desconheçam o plano de contingência da cadeia, e que se demore um dia para criar um link relacionado com a necessidade de justificação para viajar nos voos da TAP e outro para corrigi-lo, bloqueando o sistema de reservas.

Não é aceitável que a publicitação de quem é solidário e cooperante se limite aos nomes sonantes. Se o Governo não o faz, cabe-nos agradecer aos anónimos, voluntários e criativos, aos profissionais que dão parte do seu tempo para responder a dúvidas e a entreter as hostes, e aos leitores que nos dão dicas e encorajam para fazer o que nos cabe, e que não é pouco, com rigor.

Não é aceitável que tudo se suspenda e se faça tábua rasa de um conjunto de certezas. O estado de emergência não meteu na gaveta a liberdade de expressão e o direito à informação.

A hora mudou esta noite. Tomara que, a exemplo dos ponteiros, muitos se adiantem pelas grandes causas e sejam capazes de antecipar soluções inadiáveis. Afinal, não é de agora que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Com tamanha esperança, importa pedir coragem a todos. Cuidem-se porque quando todo este drama acabar, havemos de celebrar. Até lá, fiquem em casa, lendo, ouvindo e vendo informação de confiança. Fiquem em casa, junto de quem amam, pela saúde colectiva. Nós continuamos aqui!

Ricardo Miguel Oliveira