Da roupa de bonecas à alta costura, modista portuguesa veste empresários alemães

07 Mar 2020 / 10:25 H.

A portuguesa Isabel Loureiro, que começou a costurar com 12 anos, tem hoje um atelier de moda com o seu nome e veste a alta sociedade, desde empresários a futebolistas, de Wiesbaden, no centro da Alemanha.

“Já nasci para isto”, começa por contar com um sorriso a portuguesa de Mangualde, que levou as linhas e as agulhas para a Alemanha com apenas 19 anos. A decisão de sair de Portugal não foi fácil, mas hoje a modista reconhece que foi a melhor opção.

“Era pequena e já andava à procura dos trapos para fazer qualquer coisa. Comecei muito cedo, com 12 anos já costurava, com 13 anos fazia a minha roupa, com 14 fazia a roupa das minhas irmãs e com 15 a roupa de algumas empresárias. Em Mangualde já era conhecida porque trazia sempre vestido o que estava mais na moda”, descreve Isabel Loureiro à agência Lusa.

Veio para a Alemanha para ficar dois anos, a ideia era ajudar a irmã e a sobrinha pequena. “Não queria e tive de pensar bastante”, confessa, mas acabou por já não deixar Wiesbaden.

“Comecei a ter os meus clientes e acabei por ir ficando, casei e tive o meu filho que é o meu maior orgulho. Trabalhei sempre na minha profissão, para várias empresas, para outros ateliers, dei aulas. Aprendi o meu alemão sozinha, sem escola, sem professores”, conta.

A vida familiar complicou-se e acabou por atrasar o sonho de trabalhar por conta própria, mas o dia haveria de chegar, depois de muitas noites mal dormidas e muitas voltas ao dedal. Recomeçou sem ajuda, mas cheia de coragem.

“Comecei do zero. As minhas irmãs estavam aqui, os meus pais em Portugal e cada um tinha a sua vida. Já podia ter aberto o meu próprio atelier há mais tempo, mas sou uma pessoa que precisa de muita segurança, preciso de ter os pés bem assentes na terra. Sou muito trabalhadora, mas pouco aventureira. Tenho de agradecer aos meus clientes que sempre me motivaram muito”, partilha, com um sorriso.

O “Maßatelier Isabel Loureiro”, uma loja de roupa por medida, abriu há 12 anos no centro da cidade. Acabaria depois por mudar-se para um sítio mais tranquilo, adequado ao perfil de quem a procura. Dos tecidos, às cores, tudo é escolhido por ela, até ao vinho do Porto que oferece aos clientes.

“Acabei por abrir a minha loja na rua mais cara da cidade, (Wilhelmtrasse) precisamente para onde eu não queria ir”, recorda a rir. “Os meus clientes, quando cá entram, ficam muito tempo e querem sossego. É preciso alguma privacidade para que as pessoas não fiquem a olhar. Mas não tinha outro remédio”.

Depois da dificuldade em arranjar um local, surgiu outro contratempo.

“Passado uma semana de abrir deu-se o crash da bolsa, achei que aquilo tinha sido um suicídio profissional. Mas superei essa crise, e a seguinte. Mudei de loja em 2011 para o local onde estou atualmente”, adianta.

Quando começou, visitou várias feiras de moda, de casamentos, mas percebeu que quem a procurava pertencia sobretudo a um segmento de luxo.

“A maior parte dos meus clientes são empresários, advogados, privados. Tenho um ou outro político, mas não são os melhores clientes. O político não pode mostrar que se veste muito bem, têm de ter cuidado”, explica Isabel Loureiro, adiantando que teve recentemente um projeto para a direção de um clube de futebol da primeira divisão, não revelando mais detalhes.

“Também tenho muitos clientes de fora, de outras zonas da Alemanha e até mesmo de outros países, por exemplo, da Nigéria, Suíça, Emirados Árabes Unidos ou Luxemburgo. Tenho um cliente alemão em São Paulo, cada vez que cá vem, visita a minha loja. Podem não vir todos os anos, mas são clientes fiéis”, sublinha a modista portuguesa.

Depois de mais de uma década a tirar medidas em alemão, Isabel Loureiro quer coser-se com outras linhas.

“O meu desejo era apresentar a minha coleção em Portugal e ser conhecida lá. Gostava de poder passar mais tempo no nosso país. Descobri Portugal de novo, acho que se está a desenvolver muito bem, com muita qualidade, e gostava de poder trabalhar também lá”, confessa.

Mesmo longe, Isabel Loureiro sempre vestiu a camisola e até criou uma linha específica que ocupou a montra da loja, antes do Campeonato do Mundo de Futebol de 2014, com um vestido e um fato com a bandeira de Portugal.