Abraço ao futuro
É difícil escrever num dia como hoje, em que o nosso pensamento e o nosso coração estão com o povo venezuelano, a diáspora e os lusodescendentes (cá e lá). Com coragem e persistência esperamos que a Venezuela possa sair de mais esta hora difícil, enviando da Madeira um abraço unido numa só palavra: ajudar.
Escolho, também por isso, falar do futuro, passado o debate de ontem sobre ciência e inovação. Um debate que por vezes gera algum alheamento, fruto de uma certa “folclorização política”, que toma o barrete dos compadres como imagem auto-imposta – conjugando-se com o tal “miserabilismo encantado”, que a Sara Madalena em boa hora definiu neste jornal.
Sejamos honestos, 83% do emprego na Madeira está no setor dos serviços (superior aos 72% nacionais). Temos o óbvio peso do turismo (15% do emprego), do comércio (13%), da saúde e ação social (10%), da administração pública (10%), da educação (9%), mas também dos transportes (5%). Todos estes setores apontam para uma vida urbana, que está longe do retrato do “vilão” do século XIX, que uns impõem e outros reproduzem como auto-retrato.
É certo que a região tem uma enorme diferença no setor secundário (indústria transformadora), com 15% de empregados face aos 24,5% nacionais. Isto significa que não temos a indústria dos polímeros do Oeste, nem as fábricas automóveis da AutoEuropa, Stelantis, ou Mitsubishi, com tudo o que significam em termos de modernização. Os nossos 15% de indústria transformadora dependem sobretudo da construção civil.
Apesar de muito necessária, a agricultura é residual na produção regional (cerca de 2% do PIB), com acentuada baixa produtividade (10.930 € por trabalhador, um valor três vezes inferior à demais média da Região, de 33.010 €), servindo sobretudo como complemento de rendimento para 12.000 famílias (cerca de 10% da população). Estamos muito longe da economia agrícola dos Açores, em que a produtividade do setor é de 26.000 € por trabalhador, apostando em inovação e exportação. A insistência no barrete vilão não ajuda, seja na inovação ou na produtividade (ou seja, nos rendimentos).
Um dos maiores desafios está num emprego composto por 42% de pessoas com o ensino básico (até ao 9.º ano), que compara mal com 32% a nível nacional (já de si difíceis a nível europeu). E esse défice tem o seu espelho na diferença da população empregada com ensino superior (28% face aos 36% a nível nacional).
Ao impormo-nos o “barrete da colonia” alimentamos a incapacidade de mantermos os nossos jovens qualificados e reproduzirmos uma economia (e sociedade) que procura e premeia a falta de qualificação (no próximo mês procurarei abordar a relação com o ambiente institucional).
Os dados de 2024 para os setores de média e alta tecnologia da região apontam para valores ainda residuais (2,5% da população empregada face a 5,2% a nível nacional). Temos bons exemplos, como a Nearsoft, com 37 colaboradores e 1,7 milhões de euros de faturação, ou a ACIN, com 440 trabalhadores e 45 milhões de euros de faturação. No conjunto temos 388,7 milhões de euros de faturação, com 865 empresas (grande parte das quais no CIN), que empregam 2.635 pessoas. Ou seja: uma média de 0,45 milhões de euros e 3 trabalhadores por empresa.
Compare-se a realidade nacional: só o ecossistema do Porto, alavancado pelo UPTEC, injeta 850 milhões de euros no PIB e envolve 15.900 empregos qualificados (ou seja, só em torno da Universidade do Porto temos o equivalente a seis vezes todo o emprego em alta e média tecnologia da região). Uma só empresa, como a OutSystems, supera os 280 milhões em faturação anual, com 1.600 trabalhadores. Esta disparidade demonstra o que é o poder real do binómio inovação/produtividade.
A massa crítica para competir na Europa exige ecossistemas massivos e abertos ligados a boas universidades, em contextos culturais que valorizam a inovação. Por isso o Partido Socialista avançou com propostas como a Estratégia Regional da Inovação e a Estratégia para a Inteligência Artificial. Porque é fundamental uma oposição que desenha uma Região de Inovação e abraça o futuro, com base nos factos.