O poder é um jogo
(para Trump, “sus muchachos” e muitos, muitos outros “poderosos” em todos os cantos do mundo que se julgam impunes até um eventual xeque-mate!)
Julgo que muitos já ouviram falar de xadrez. O xadrez da política, o xadrez das emoções que pode levar-nos por caminhos que não antevíamos, o xadrez das finanças que pode mudar o panorama da sobrevivência das famílias, o xadrez jogo de estratégia que se joga num tabuleiro, enfim, o que queiramos encaixar num contexto mais geral em que estratégia é um denominador comum.
O xadrez jogo, é um jogo, passe a redundância.
Que se desenrola num tabuleiro quadrado de 64 caixas (8x8) alternadamente claras e escuras (poderia entrar agora num tema de diferenciação das cores e nos juízos que essa diferenciação traria, mas isso fica para outra ocasião), nas quais se movem as 32 peças – 16 para cada jogador – que representam várias figuras, todas relacionadas com a “arte” da guerra: umas representam as várias classes sociais – a nobreza com uma Rainha e um Rei, o clero com dois bispos, oito peões representando a plebe - a guarda avançada das personagens anteriores, os animais estão representados por dois cavalos e, duas torres a representarem os antigos castelos que eram guarida para todos os demais citados; todas as figuras do jogo podem fazer parte de um manual de guerra ou de uma qualquer lição de estratégia militar servida por civis.
Mas, para que a coisa funcione há uma série de regras (chamemos-lhes de Constituição, por ex.) que determinam como é que as peças se podem mover no tabuleiro, pois sem regras (Constituição) nada funciona como deve ser, por muito que haja quem queira contornar o que as regras de boa convivência entre todos ditam e queira através desse contorno tirar vantagem, que pode ser ilusória, no desenrolar dos movimentos que o jogo vai proporcionando.
O objectivo é que um dos jogadores coloque o Rei adversário em posição tal que não consiga escapar. Chama-se a isso xeque-mate, isto é, um jogador “liquida” a posição do outro. É considerado um jogo de estratégia e tática, que envolve planeamento, concentração e raciocínio lógico. Para além de ser competitivo, o xadrez é considerado uma ferramenta estimuladora da autonomia intelectual, a concentração e a autoconfiança, e é praticado por milhões de pessoas em todo o mundo.
É um jogo de estratégia jogado num campo limitado, com movimentos condicionados pelas regras existentes que regulam o bom desempenho de qualquer dos jogadores. Quem joga xadrez, ou mesmo quem já viu jogar, sabe que os jogadores, antes de executarem um movimento, têm de antecipar e estruturar cinco ou seis jogadas, suas e as previsíveis do adversário, antes de movimentar determinada peça, sob pena de perder posições porque o adversário utiliza também a antecipação quando equaciona que movimentos pretende executar para atingir o almejado xeque-mate.
Esquecer as regras é violar o espírito do jogo, é violar a concentração que o jogo exige, é violar a estratégia, é violar a tática, é violar o planeamento, a concentração e o raciocínio lógico!
Violar é deixar de cumprir, é deixar de respeitar, é transgredir, é profanar, é divulgar ou revelar segredos, é usar um lugar que não é seu através da força, é invadir o domicílio alheio (ou o país alheio) usando a força, é estuprar!
Violando as regras, o xadrez (ou qualquer outro jogo ou, se quisermos ser mais abrangentes, qualquer actividade em que o comportamento humano seja factor de entendimento) um jogador está querer a impor novas regras (ou leis, se continuarmos a ser abrangentes na análise) sem que as mesmas tenham o acordo de todos quantos se mostram interessados em jogar.
O problema é que há uns quantos maduros (não, não me estou a referir àquele da Venezuela, se bem que também ele pode encaixar a carapuça) que julgam que o mundo é um tabuleiro, o seu tabuleiro privado, e que podem alterar regras (e leis) ao seu belo prazer, e que com o poder das suas torres e dos seus cavalos podem atingir os peões do adversário e que atingindo a linha da frente da defesa do Rei e da Rainha podem enfraquecer o poder das jogadas do adversário.
Temos assistido nos últimos tempos a enormes quantidades de violações de regras seculares por parte de jogadores que julgam ser donos do tabuleiro do mundo, violações que atingem em primeiro lugar os peões do adversário porque os poderosos sentem-se protegidos pelos seus cavalos e pelas suas torres, com o beneplácito dos seus bispos.
Donald Trump tem sido um exemplo de violador compulsivo, sociopata diria, das regras do jogo no qual quer participar quase como jogador “dono da bola” que dita as regras conforme lhes vão sendo mais favoráveis.
Tem poder mas não deixa de ser um violador, que encontra pela frente violadores do mesmo calibre que vão jogando nos tabuleiros que lhes vão fornecendo os fabricantes ávidos dos lucros fabulosos que a constante mudança de regras traz, forçando a construir mais e mais tabuleiros onde podem ir compondo as suas jogadas, agora já sem estratégia, sem concentração, sem planeamento ou tática, numa óptica do vale tudo para atingir o xeque-mate almejado.
Mas o xadrez tem ainda uma outra característica que, se quisermos, pode ter uma abrangência muito maior:
Em cada tabuleiro, é jogado ferozmente por dois jogadores “inimigos” que tudo fazem para destruir as defesas do adversário, eliminando peões, cavalos e torres, bispos e rainhas para atingir o desejado xeque-mate ao rei, mas que no final das contas até podem ser melhores amigos que vão tomar uns copos depois da contenda, com os peões dos muitos tabuleiros onde vão jogando a assistir impotentes às constantes violações das regras mais básicas da convivência humana!