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Crónicas

A privatização da TAP

Há assuntos que em Portugal nunca chegam verdadeiramente a sair de cena. Mudam de governo, trocam de ministro, ganham novas expressões técnicas, mas regressam sempre com a mesma sensação de déjà vu político. A construção do novo aeroporto de Lisboa é um desses casos como é também a privatização da TAP Air Portugal, uma espécie de novelas nacionais onde se alteram os protagonistas, mas o argumento permanece teimosamente familiar. Quando se fala aliás da companhia área de bandeira portuguesa, percebe-se imediatamente que não estamos perante um simples debate económico, estamos diante de uma questão quase emocional, nacional, identitária, e para alguns territórios, profundamente existencial. Durante décadas foi uma espécie de corredor simbólico entre o continente e o resto do mapa de língua portuguesa, sobretudo para quem vive rodeado de mar. Qualquer alteração no transporte aéreo é sentida com a determinação de quem sabe que um bilhete de avião pode significar trabalho, saúde, família ou qualidade de vida.

Na Madeira e nos Açores, por exemplo, a TAP nunca foi apenas uma companhia aérea. Foi durante décadas uma garantia de continuidade territorial, um mecanismo imperfeito, muitas vezes criticado, por vezes caro, frequentemente alvo de impaciência, mas ainda assim parte de uma estrutura invisível que impede que a distância se transforme em isolamento absoluto. Quando em Lisboa se discute rentabilidade, por lá pensa-se noutra gramática. Horários compatíveis, lugares disponíveis, tarifas suportáveis, ligações em períodos críticos. Porque para quem vive rodeado de mar, viajar nunca é apenas deslocar-se. É resolver a vida prática, acudir a urgências, manter pontes familiares, profissionais e emocionais que o oceano não simplifica. Neste caso ainda mais importante por ter o acordo com o Estado do subsidio de mobilidade que permite aos residentes viajar a preços mais justos e competitivos, tentando de alguma forma equilibrar os pratos de uma balança um tanto ou quanto desequilibrada.

Não estou com isto a dizer que nos termos e condições que se conhecem não seja um bom negócio e não estejam asseguradas todas as garantias de que o principio da continuidade territorial seja preservado, embora o “todas” e o “para sempre” me façam sempre alguma confusão. É verdade que hoje o mercado já não é o mesmo de há vinte anos. Há concorrência, há companhias low cost, há novas dinâmicas. Mas também é verdade que nenhuma dessas variáveis elimina o peso simbólico e estratégico da TAP. Porque há momentos em que o mercado funciona e outros em que é preciso que o Estado assegure o tal equilíbrio que acabei de referir. Neste caso especifico, parece-me bem que a venda seja respetiva a uma posição minoritária (49.9% do capital dos quais 5% são para os trabalhadores) e que Portugal mantenha uma posição estratégica exigindo que o tal investidor mantenha a sede e a direção em Lisboa, mas também sabemos que quando se quer existem muitas e criativas formas de o contornar…

Neste momento estão em cima da mesa duas propostas não vinculativas, da Air France-KLM e da Lufthansa, saindo de cena, como era aliás expectável perante os últimos sinais a IAG, dona da British Airways e da Ibéria. Seria aliás um perigo para a companhia, ser comprada pelos donos de uma das suas maiores concorrentes. A Ibéria tem o seu hub no aeroporto de Madrid e numa estratégia a longo prazo não me parece que não se tentasse condensar tudo num só espaço, sendo que Espanha seria uma escolha natural dada a sua dimensão. No entanto parece-me curta a informação que circula para os portugueses sobre as condições do negócio sendo que a “obrigatoriedade de impulsionar o turismo português” me parece uma ideia muito vaga e de fácil não concretização sob diversos pretextos. Ainda estamos longe do fim desta história que tem conhecido avanços e recuos ao longo dos anos mas num país que se orgulha tanto do mar, é fundamental que quem vive do outro lado “da ponte” não saia prejudicado quando o negócio se concretizar. Se se concretizar…

Frases soltas:

Donald Trump parece ter-se enfiado num beco sem saída e bem ao seu estilo resolveu disparar para todo o lado. Falar da mulher de Macron e fazer chacota dos eventuais problemas conjugais do casal, põe a nu o Estadista que ele (não) é. Se é que eram precisas mais provas…

Nos últimos dias conhecemos (mais) dois alegados casos, um de violência doméstica e outro de abuso sexual, de pessoas que têm ou tiveram responsabilidades políticas em Portugal. A dimensão ética e humana das pessoas por vezes têm o condão de nos mostrar que a capacidade profissional ou intelectual nem sempre vem ligada à sensibilidade emocional.