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Sim, sim! Definitivamente, sim!

Creio, sinceramente, que a Autonomia só se aprofundará, de facto, se existirem partidos regionais

“Tu já és, mas tens de te tornar tu próprio...ou não és!” José Gil

Não estranhem o título! É uma resposta a alguém que, apesar de considerar academicamente (e que me levou a citar no meu doutoramento), está nos antípodas do que penso sobre o tema dos partidos regionais.

Diz Blanco de Morais, questionado pelo DN a 10 de março, sobre a possibilidade da existência de partidos regionais, que “não, não, não, de todo, de todo”. Agarrando-se à ideia de Portugal ser um Estado unitário. Esquecendo, entre outros exemplos a que se podia recorrer, o caso paradigmático da ultra-unitária França, onde existem partidos regionais.

O que parece evidenciar, afinal, que o seu posicionamento é, acima de tudo, ideológico. Já que afirma, ainda, “Eu temo que possa haver a criação de partidos populistas com uma vertente demagógica e regional, que depois resvale, por uma razão de oportunismo, para um certo separatismo”.

Ou seja. O que Blanco de Morais, jurista de renome, assume, é medo. Enraizado na desconfiança típica, sobre a capacidade dos Madeirenses saberem escolher o que é melhor para si. Para as suas necessidades, desejos e expectativas. Considerada a sua história, geografia, economia e dimensão pluricultural. Decorrente, não dos traços exclusivos de uma qualquer metrópole. Outrossim de um processo sistemático, de 6 séculos, de “chegada; fixação; partida e retorno” de tantos, de muitas partes do mundo. Processo esse que permitiu fabricar, “a partir dos diferentes materiais, uma identidade pessoal única” (Denys Couche).

E é desta, da identidade Madeirense, que muitos têm medo. E, por isso, numa lógica hoje muito usual, defendem o seu cancelamento. Por (e de) diferentes formas. Neste caso, através da proibição de partidos regionais. Deixando no ar a ideia de que não têm capacidade para fazer as escolhas mais adequadas. O que não é de estranhar, atenta a cultura enraizada na ex-capital do império. Que António Barreto identifica, exemplarmente, ao sublinhar que “A opressão ou o desprezo do Estado central pelas regiões insulares, quer falemos da monarquia constitucional, da República e do Estado Novo, quer da democracia, tiveram sempre um suplementar cariz colonial”.

E este entendimento, sobre a impossibilidade da existência de partidos regionais, decorre dessa perspetiva. Se a Autonomia (ainda) é uma espinha na garganta de tantos, como sabemos e sentimos pela “jurisprudência” e atuação dos representantes das mais diversas instituições do poder dito nacional, imaginem o que lhes vem à cabeça só de pensarem que os partidos não têm de ser só “do centro”, mas que podem, pelo contrário, pensar e defender interesses a partir “das periferias”, das regiões?

Dito isto, creio, sinceramente, que a Autonomia só se aprofundará, de facto, se existirem partidos regionais, já que, como Herculano, sabemos que “A centralização leva o terror por toda a parte; passeia, por toda a parte, uma espécie de inquisição”. O que se verifica, também, nos partidos nacionais. Assim sendo, não há alternativa. A luta continua!