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Crónicas

Energias negativas ou padrões repetidos?

Nada tem significado a não ser o significado que lhe atribuímos

Quando alguém me pergunta se acredito em energias negativas, nunca sei se respondo como jornalista ou como master trainer em neurolinguística. Uma parte de mim pede provas, a outra observa padrões.

Foi isso que me aconteceu quando uma senhora, sentada diante de mim, numa sessão de consultoria de comunicação com neurolinguística, perguntou com toda a naturalidade qual o baralho que eu utilizava.

Durante segundos, fiquei em silêncio. Ela estava genuinamente à espera de cartas. Tarot. Oráculos. Um ritual simbólico que lhe explicasse a vida.

Rimo-nos quando lhe expliquei que não havia baralho nenhum. O único “tarot” naquela sala seria o cérebro dela. Eu não iria prever nada. Iria apenas guiá-la a organizar os próprios significados.

Dias depois, chegou-me às mãos Xô, Encosto!, de Márcos Fernandes, publicado em Portugal pela Albatroz. Sorri ao ler o título. Tem força, tem teatralidade popular, evoca as avós que benzian os bebés e as bisavós que repetiam, cúmplices, “yo no creo en brujas, pero que las hay, hay”.

Entre o sorriso e a reflexão, lembrei-me de que hoje, 3 de março de 2026, é apontado por astrólogos como um dos momentos mais intensos do ano, um Eclipse Lunar Total em Virgem, associado a revelações súbitas e ajustes urgentes na saúde, no trabalho, na rotina.

A astronomia fala de sombras projetadas. A astrologia fala de sombras interiores.

A neurolinguística lembra-nos algo essencial. O mapa não é o território. Não reagimos ao mundo como ele é, reagimos à representação interna que construímos dele.

Um eclipse é, objetivamente, um fenómeno astronómico, um jogo previsível de luz e sombra. Mas quando lhe chamamos “transformador”, o sistema nervoso entra em estado de atenção redobrada. Aquilo em que focamos cresce na experiência. Procuramos sinais, fazemos associações, damos sentido a coincidências. O cérebro humano é uma máquina de significado. Não responde à realidade pura, responde à interpretação.

Foi exatamente isso que vi naquela sessão. A senhora não reagiu à realidade do encontro, reagiu ao mapa que tinha construído sobre o que seria “uma consulta”. Talvez já tivesse recorrido a leituras espirituais. Talvez associasse qualquer conversa profunda a cartas e símbolos. O cérebro procura padrões familiares para se sentir seguro.

Perguntei-me, em silêncio, o que teria acontecido se eu tivesse pegado num baralho. Provavelmente teria relaxado de imediato. O ritual externo corresponderia à expectativa interna. O símbolo acalmaria o sistema nervoso. Mas a transformação não viria das cartas. Viria das perguntas, das memórias ativadas, do significado reconstruído.

É aqui que o livro de Márcia Fernandes pode ser lido de duas formas. Como manual esotérico, para quem acredita em energias e influências invisíveis. Ou como metáfora poderosa sobre padrões emocionais que repetimos e aos quais damos nomes externos.

Quando alguém fala em “encosto”, talvez esteja a nomear medo persistente, culpa antiga, autossabotagem. Quando alguém sente necessidade de “limpar energias”, talvez esteja a reconhecer que tolera ambientes que o drenam.

A espiritualidade, quando amadurece, deixa de ser fuga e passa a ser responsabilidade ampliada.

Convém também distinguir metáfora de ciência. A física quântica descreve probabilidades no mundo subatómico. Não explica diretamente o amor ou o sucesso financeiro. Mas a metáfora devolve algo poderoso. Devolve a ideia de que participamos na construção da nossa própria realidade. E quando alguém acredita que tem influência, comporta-se com mais intenção, mais foco, mais responsabilidade.

Não é o universo a mexer cordelinhos invisíveis. É o cérebro a reorganizar prioridades quando acredita que pode escolher. E isso muda comportamento.

Se acredito que preciso de “limpar energias”, talvez esteja a reconhecer que tolero ambientes que me drenam. Se acredito que há um “encosto”, talvez esteja a nomear um padrão repetido de medo, culpa ou autossabotagem.

E se o verdadeiro eclipse não estiver no céu, mas na forma como obscurecemos partes de nós que não queremos ver?

Talvez o verdadeiro “xô, encosto” seja dito às histórias que repetimos sobre a nossa própria impotência.

Quando mudamos o significado, mudamos o estado. Quando mudamos o estado, mudamos o comportamento. E quando mudamos o comportamento, o mundo responde de maneira diferente. Não é magia. É coerência interna.

No fim, este livro pode ser lido como proposta espiritual ou como metáfora psicológica. A escolha é nossa. Porque, como lembrava a mãe da terapia familiar sistémica, Virgínia Satir, nada tem significado, a não ser o significado que lhe atribuímos. E é nessa atribuição que se joga, silenciosamente, o sentido da nossa vida.