A política do rodízio das bengalas
1. Não posso garantir se o guião já está fechado. Não sei se há datas escondidas num calendário, telefonemas sussurrados, sorrisos de canto ou aquelas palmadinhas no braço que, na política, servem de moeda para substituir a honra. Às vezes, a vida pública deixa de ser coincidência e passa a ser coreografia. Por trás das aparências, emerge o mecanismo dos favores. O que se murmura nos corredores, o que se nega com ar ofendido, já não soa a acaso. Nem a prudência. Tem cheiro de negócio, de acerto. Para ser honesto, cheira a rotina.
O raciocínio é simples, quase pobre na sua simplicidade, e talvez, por isso mesmo, verdadeiro, como certas misérias domésticas que se escondem mal debaixo da toalha da mesa. O partido que hoje sustenta o Governo Regional, em troca de um lugar à mesa, de uma secretaria para mostrar serviço, de uma cadeira onde se posa para as fotografias como quem herdou uma parcela de eternidade, não pode chegar ao fim do mandato sem trazer ao pescoço, como uma dessas pedras que os afogados levam consigo para o fundo, o ónus de ter sido a bengala do poder. E uma bengala não deixa de ser bengala por se perfumar, por mudar de cartaz, por trocar meia dúzia de palavras na propaganda. O eleitor, apesar de tudo, apesar do cansaço, apesar da resignação, ainda distingue entre um homem que tropeçou e um homem que vive amparando o mesmo corpo.
Por isso, as contas mais prováveis são outras. A política, como se sabe, vive de pequenos cálculos que depois se apresentam como grandes decisões históricas. É ficar enquanto convém, enquanto rende, enquanto for possível mostrar resultados. Depois, quando a conta chega e o peso se torna visível, a saída é rápida e discreta, normalmente cerca de um ano antes das eleições. Sai apresentando-se como alguém que só agora percebeu o problema que ajudou a sustentar. Reaparece com postura de oposição, tentando passar a imagem de integridade. Critica o governo que apoiou, demonstrando indignação, como tantas vezes ocorre na política. É a política de bastidores, em que todos fingem surpresa diante do que planearam com antecedência.
Eis quando, senão, surge a pergunta que nem sequer exige subtileza, apenas olhos e alguma memória, coisa que, em certos meios, parece obscena. Se esse partido sair, quem ocupa o lugar? Quem se adianta para preencher o vazio. Quem anda a ensaiar, com aquele misto de sofreguidão, cautela e respeitabilidade de empréstimo, o mesmo papel, dizendo, ao mesmo tempo, que será tudo diferente, tudo novo, tudo imaculado. Não é preciso ser adivinho. Basta olhar para a Assembleia. Basta reparar nas inclinações, nas pausas, nos entusiasmos cuidadosamente medidos, nos convites, nos abraços selectivos, na maneira como certas figuras se aproximam do poder com aquela expressão humilde e faminta de quem quer parecer indispensável sem confessar, nunca confessando, que o que deseja é apenas entrar.
As posturas na ALRAM não são inocentes, como não são inocentes certos objectos antigos ou gavetas que ninguém abre. Aproximações não nascem do nada. Silêncios pesam mais do que discursos inteiros. Delicadezas parlamentares, vistas de perto, são só pedidos de entrada, pequenos requerimentos morais assinados com pose. Quando se multiplicam convites a figuras antigas do aparelho e se nota o cuidado em não hostilizar quem manda, a ansiedade de parecer moderado, responsável, governável, aproveitável, não vale a pena fingir espanto. Há quem se treine para ser o próximo apoio. Nessa gente, servir vira vocação, sempre embrulhada em sentido institucional, como se a servidão de gravata fosse virtude cívica.
O mais notável, se é que ainda vale a pena chamar notável ao que já se tornou rotina, é que ainda se espera que os eleitores levem a representação a sério. Primeiro, um partido justifica o apoio em nome da estabilidade, essa palavra gorda e untuosa que serve para legitimar quase tudo. Depois, abandona o barco a tempo de salvar a pele e regressa com a inocência postiça de quem se julga absolvido por ter saído antes do naufrágio. A seguir, outro, que passou meses entre a crítica tímida e a complacência calculada, oferece-se para ocupar o lugar e tenta apresentar a mesma operação, o mesmo expediente, a mesma vergonha, como se fosse uma nova forma de responsabilidade. Isto é táctica, calendário, sobrevivência, instinto de conservação. O resto é literatura partidária, da pior, escrita para consumo interno e para digestão rápida.
O problema não é só de táctica. É político e é moral. E a moral, nesses casos, costuma ser deixada de lado. Uma democracia regional habituada a apoios sucessivos exibe sempre o mesmo espectáculo: partidos que não querem mudar o poder, só negociar o apoio; dirigentes que não querem reformar nada, só garantir um lugar confortável.
Posso enganar-me no calendário exacto, errar um nome secundário, uma cara de bastidor ou um pormenor do mecanismo. No entanto, a lógica está exposta como uma ferida. O partido que apoia o Governo não pode ir até o fim sem pagar por isso; não pode atravessar a linha de meta sem carregar o peso político de ter sido apoio. Deste modo, sairá quando lhe convier parecer livre, quando a fuga puder ser vista como consciência. Ao mesmo tempo, outro se prepara para entrar, não por coragem, visão ou amor à região, mas porque sempre há quem prefira viver perto do poder, mesmo mal sentado, do que correr o risco de existir por conta própria.
No fundo, é isto. Um rodízio de bengalas vendido como estratégia, maturidade ou governabilidade. Palavras que, por aqui, quase sempre querem dizer o contrário do que prometem. O mais espantoso, ou talvez já nem espante, é que nem se esforçam para disfarçar o cheiro. Cheiro de arranjo velho, sala fechada, coisa que apodreceu há muito e, ainda assim, é apresentada como novidade.
2. A Luz que Não se Quer Ver
[Como a Madeira escolhe a superstição energética em vez da soberania]
A energia, sempre a energia, essa coisa invisível que move tudo na ilha: acende os candeeiros, faz subir o elevador da avó até ao quarto andar, onde ela se senta, com o som da televisão alto. Todos usam essa energia, como se viesse do céu, do mar, das tomadas. Mas, na Madeira, pensar na energia como algo concreto - com peso, volume, custo, perigos e alternativas - não existe. Por aqui, energia é mistério e poesia, nunca responsabilidade adulta nem escolhas difíceis.
Dá trabalho. Assusta. É preciso escolher. Na ilha, as escolhas são difíceis: muitas vezes, adia-se, copia-se, faz-se de conta. Monta-se um painel solar, ergue-se uma turbina, redige-se uma estratégia repleta de palavras tiradas da internet e de fotos com filtros verdes. Imprime-se em papel reciclado e proclama-se que estamos a caminho da neutralidade carbónica, como se fosse mais uma festa de Verão: muita música, pouca substância. Contudo, ao enfrentarmos os desafios colectivamente, podemos transformar intenções em realidade, passo a passo.
A central da Vitória ainda tosse, noite e dia, como um velho doente. O combustível chega sempre de barco, sempre. Se o mar se irrita, falha o transporte, ou há greve ou embargo, o gerador do hospital pára, a luz apaga, o frigorífico do hotel desliga, o elevador da avó prende. Depois vêm as críticas: turistas no TripAdvisor dizendo que a ilha é bonita, mas à beira da falência energética, exótica e primitiva. Um postal que se rasga ao primeiro vento.
A Madeira podia ter outra solução. Uma solução que cabe num campo de futebol, que não depende do tempo, que não precisa de cabos para o continente, que não morre à primeira tempestade nem se rende à falta de vento. Chama-se Reactor Modular Pequeno (SMR). Já não é ficção científica nem projecto de laboratório. É realidade em países que se levam a sério: Canadá, Finlândia, Roménia, Estados Unidos, Reino Unido, Japão. Lugares onde a política ainda significa fazer, não só prometer.
E aqui? Nem se toca no assunto. “Nuclear” virou palavrão. Não se diz, não se escreve: todos evitam, jornais, engenheiros, professores, deputados, presidente. Falar disso exige responsabilidade: artigo raro, pouco praticado e, menos ainda, cobrado. Prefere-se discutir turismo, eventos, internacionalização, descarbonização. Qualquer ideia que obrigue a encarar a realidade e repensar tudo é logo descartada. Não pega. Não serve. É como plantar anoneiras no telhado: bonito na teoria, inútil na prática.
A Madeira prefere a aparência às escolhas concretas. Tira selfies com painéis solares, faz vídeos com drones sobre turbinas eólicas e publica tudo nas redes sociais com legendas de futuro. Mas a verdadeira mudança exige coragem para discutir SMRs, assumir responsabilidades e sair da infância política.
P.S.: Quando estive na Assembleia Legislativa da Madeira, estava a preparar um Projecto de Resolução sobre energia nuclear, sugerindo a criação de um grupo técnico-científico para analisar a viabilidade dos SMRs. Defendi envolver especialistas e cooperação internacional. O objectivo era claro: enfrentar o problema de frente, sem fingir. Mas, por enquanto, isso ainda é difícil por estas bandas.
Como disse Bruno Soares Gonçalves (façam-vos um favor e vão ver quem é no Youtube): a energia nuclear é a arma de descarbonização maciça. E o resto são balelas sem ciência.