O bom, o mau e o presidente
O bom: Parlamento dos Jovens
Foram ao parlamento regional saber o que é ser deputado, saíram a saber que o exemplo nem sempre vem de quem ocupa a cadeira. Ao todo, foram quase quarenta estudantes, em representação de treze escolas secundárias da Região, feitos deputados por um dia para discutir, entre outros temas, a literacia financeira. Pelo meio, acabariam brindados com uma inusitada homilia, ensaiada por Francisco Gomes, deputado do Chega na República, que começou no flagelo da corrupção, passou pelo perigo da imigração descontrolada e terminou na orientação sexual dos mais novos.
O que deveria ter sido um debate, cedo transformou-se num tenebroso sermão do deputado do Chega. Mas ao contrário do Padre António Vieira, que pregava aos peixes porque os homens não o queriam ouvir, Francisco Gomes falava aos jovens como se eles não fossem capazes de responder. E como se enganou o parlamentar do Chega. Assim que perceberam que o espaço, que deveria ser de aprendizagem, estaria a ser usado como palco da mais reles politiquice, os jovens deputados apresentaram e aprovaram, por esmagadora maioria, um protesto. Sem ruído desnecessário, sem indignação teatral. Uma mensagem política simples, clara e objetiva. Ali, e por eles, o populismo não passaria. Foi assim que quarenta adolescentes deram uma pequena, mas valiosa, lição de democracia a um político profissional. Para quem repete, com sobranceria, que os jovens estão cada vez mais afastados da política, talvez seja tempo de olhar com mais atenção para alguns adultos que vivem dela.
O mau: José Carlos Gonçalves
Deveria ter durado quatro anos. Maioria na câmara, maioria na assembleia, maioria nas juntas de freguesia. Afinal durou cinco meses. A bomba rebentou à conta das grutas de São Vicente, mas, em boa verdade, a primeira conquista autárquica do Chega foi chama que se extinguiu aos poucos. A prometida providência cautelar, essencial para evitar o desaparecimento de documentos municipais, nunca chegou. A anunciada auditoria forense às anteriores governações foi adiada. Até os 100 lugares de estacionamento em 100 dias sucumbiram, vítimas da dura realidade de que governar um município, não é o mesmo que fazer discursos sobre o sistema. E assim, dia após dia, a prometida revolução municipal em São Vicente foi ficando pelo caminho. Pelo caminho ficou também a ideia de que o Chega não é apenas mais um partido de protesto, mas uma alternativa de governação. Cinco meses depois, em São Vicente, resta uma câmara desnorteada e em guerra consigo própria. Não só porque os vereadores do Chega reprovaram uma proposta do presidente da Câmara, mas porque José Carlos Gonçalves terá sido surpreendido, em plena reunião, com a traição palaciana. Governar exige estabilidade, liderança e o mínimo de articulação política. Nada disso parece restar em São Vicente. Se, à evidente crise política, juntarmos a exigência de renúncia aos vereadores desalinhados, seguida da surreal concentração de todos os poderes no presidente, é claro que o problema, mais do que político, é estrutural. E isso tem um significado preocupante. Deixou de haver governo municipal em São Vicente e passou a haver um gabinete de gestão de crise, com os dias contados. Em São Vicente, José Carlos Gonçalves provou que ganhar eleições autárquicas é difícil, mas governar, pelos vistos, é muito mais.
O presidente: António José Seguro
Há frases com gravidade suficiente para marcar um mandato presidencial. Cada Presidente da República teve a sua. Cavaco Silva, no início do segundo mandato e com o país sob intervenção do FMI, alertou para os limites aos sacrifícios impostos aos cidadãos. Jorge Sampaio declarou, em desafio ao governo de Durão Barroso, haver vida para além do orçamento do estado. Mário Soares, depois de agredido durante a campanha presidencial, lembrou que a Marinha Grande era do povo, não era de Moscovo. Em 2026, António José Seguro encontrou a sua frase no primeiro discurso presidencial. Portugal inteiro. A expressão parece retórica, mas perante um adversário eleitoral que fez da sua campanha a separação entre portugueses de bem e de mal, declarar Portugal inteiro também é um programa político. A legitimidade de Seguro, para além de eleitoral, também parte da sua vontade de unir o que Ventura quis separar. É um bom ponto de partida, mas não evita outros desafios presidenciais. Para além de unir, Seguro terá de devolver peso à palavra do Presidente da República. Ao contrário de Marcelo, que se fez presidente da proximidade, Seguro terá de construir a sua autoridade a partir da parcimónia na intervenção. Repetidamente acusado, durante a campanha, de se esconder no conforto do consenso, agora em Belém, o novo Presidente terá de provar que moderação não significa apagamento. Começou por declarar-se, sem surpresa, garante da estabilidade governativa, o que apenas torna ainda mais difícil de compreender a decisão do PSD e de Montenegro de lhe recusarem apoio na segunda volta. Afinal, se havia um Presidente mais confortável para um governo da AD, seria precisamente Seguro. Talvez por isso a frase “Portugal inteiro” carregue mais significado do que parece à primeira vista. Ao Presidente da República resta transformar essa ideia numa prática política com significado.