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Ainda à espera de um pedido de desculpas aos madeirenses e açorianos

Se há uma ideia contemporânea que não pode ser posta em causa e que a todos alcança, é a dignidade. Mas nem sempre foi assim. Nos tempos antigos, em particular em Roma, a dignidade era desigual e conquistada por poucos. Hoje assim não o é. Quando falamos de dignidade, temos todos a consciência de que, mais do que uma ideia, é um direito que a todos assiste. Tem, pois, um valor universal, inerente e inalienável, é, simultaneamente, individual, mas também colectiva. E não pode ser posta em causa.

O que se passou, na Assembleia da República, a “Casa da Democracia” do nosso país, onde as responsabilidades de cada um e de todos são ainda maiores, aquando do debate sobre as alterações ao Modelo de Mobilidade (Aérea), é vergonhoso. Mesmo insultuoso! Mas não apenas aos portugueses que vivem nas Regiões Autónomas, nos Arquipélagos que fazem Portugal ser maior e, internacionalmente, valioso; também foi um insulto a todos os portugueses e mais ainda à unidade do país.

Já não está em causa a discussão do Modelo de Mobilidade, mas sim a permanência de um pensamento reacionário, centralista e colonialista, tornado público nas palavras do Líder Parlamentar e Secretário-geral do meu partido.

O que todos os portugueses perceberam, mas em particular os madeirenses e açorianos, é que, afinal, assim sempre foi, isto é, o que foi dito é o que pensam, estava era escondido, dissimulado: para a elite nacional, tenha ela que ideologia e cor partidária tiver e, por mais que digam o contrário e sejam todos muito simpáticos e sorridentes, quando nos visitam e precisam de nós, somos uns “relaxados” que vivem à custa do Estado, somos um problema e não uma mais-valia e não temos os mesmos direitos que os restantes cidadãos. Temos de viver desterrados nas ilhas, numa espécie de Tarrafal, em que devemos estar gratos pelo cumprimento, por parte da República, do mínimo das obrigações constitucionais.

Esta situação é, claramente, um reavivar jacobino, que tenta destruir, por incúria ou ignorância, as pontes que foram sendo construídas, paulatinamente, embora por vezes com grandes dificuldades em nome da unidade, do desenvolvimento colectivo, integridade política e territorial do país.

O direito à dignidade dos povos insulares, nas suas mais vertentes, desde a colectiva, à individual, passando pela vida social, económica, cultural, desportiva e até da saúde, que é de tudo isto e muito mais quando se fala em mobilidade, é inalienável e, por isso mesmo, não ficava mal um pedido de desculpa pelos prevaricadores, ainda que desculpas não mereçam, porque a nossa dignidade não tem preço, muito menos compactuar com registos provincianos e miserabilistas que só fazem de Portugal um país cada vez mais pequeno e que nos interpreta como um fardo, mostrando que desconhecem a história e que só somos portugueses quando lhes interessa, o que é, diga-se, em abono da verdade, raramente.