E tudo o vento levou
No meu artigo do mês passado falava das muitas incertezas que teríamos de enfrentar em 2026, mas longe estava de imaginar que a incerteza climática se concretizaria na série de tempestades que assolaram o Continente desde o final de Janeiro. Estes fenómenos extremos, que infelizmente se irão repetir mais frequentemente, mostraram a nossa fragilidade perante uma Natureza que adquire uma força destrutiva que ninguém, mesmo os mais velhos, se lembra de ter visto antes.
De um momento para o outro as pessoas viram os telhados de suas casas arrancados, algumas paredes a não resistirem ou mesmo toda a habitação a desaparecer... a força do vento arrancava tudo pelo seu caminho, depois a chuva entrou nas habitações, aumentou os caudais dos rios, os quais inundaram as casas e os campos e no final muitas famílias perderam tudo ou quase tudo. Para juntar a estas desgraças ficaram sem eletricidade, sem água potável e sem comunicações. Para além das habitações, muitos viram as suas fontes de rendimentos destruídas.
Acho que quem não passou por estas situações, tem dificuldade de imaginar a sensação de impotência que as pessoas sentiram ao perguntarem-se a si próprias: “o que vai ser de nós?”.
Infelizmente há mortes a lamentar (apresento aqui os meus sentimentos às famílias e amigos enlutados), mas para quem ficou a vida tem de continuar. Para eles, como para maioria dos portugueses, a habitação própria é o seu maior ativo, ou seja, a habitação própria é a fonte de segurança garantindo não só o lugar para viver, mas também um valor patrimonial com o qual se pode sempre contar. As tempestades destruíram a habitabilidade e o valor patrimonial. Outros houve que perderam os seus negócios e, em consequência, muitos estão na iminência de perderem os seus empregos.
A solidariedade de todos, os apoios decididos pelo Governo e pelo poder local e os seguros (para quem os tinha) tentam minimizar as consequências de uma situação climática nova, mas para muitos o seu futuro vai ser muito diferente daquilo que pensavam vir a viver e, em particular, para os mais idosos e mais vulneráveis com pouca capacidade para começarem tudo de novo.
Durante as intempéries muito se falou da falta de prevenção, dos erros cometidos no passado ao construírem-se habitações nas zonas de cursos de água e todos os outros problemas que sempre que existem calamidades são apontados, sendo que passado pouco tempo deixam de fazer parte das nossas preocupações e não aparece quem nos aponte procedimentos para enfrentar situações idênticas ou ainda piores do que estas no futuro.
Apesar de nada parecer ter sido feito, a realidade é muito diferente da existente antes do 25 de Abril porque ainda me lembro das cheias na zona de Lisboa em Novembro de 1967 com mais de 700 mortes e dezenas de milhares de casas destruídas. Hoje temos muito mais previsão, organização e a coragem de evacuar antes do pior acontecer.... estamos no bom caminho, falta percorrê-lo a passos mais largos.