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Metade amigo e metade inimigo é pior que inimigo declarado!

Gostaria de ver investigações destas nas supostas corrupções de utilização de dinheiros públicos

Quem comigo esteve na política, muitas vezes, ouviu-me repetir esta frase. Isto porque a vida ensinou-me que existem “amigos” que são piores que os nossos “inimigos”. E, na verdade, só somos traídos por quem confiamos. Já Maquiavel dizia que para não ser traído, o governante deve acreditar que todos são traidores e, antes de ser amado, deve ser temido.

Vem isto a propósito dos últimos acontecimentos políticos ocorridos no PSD nacional sobre as buscas que a Polícia Judiciária efetuou no dia 12 de julho, na casa do ex-Presidente do PSD, Rui Rio, e na sede nacional do partido, por suspeitas dos crimes de peculato e abuso de poderes, tendo para isso mobilizado, segundo as notícias, cerca de 100 inspetores e peritos. Mas que aparato. Fiquei curiosa para saber o que de tão grave foi feito para tão grande investigação. Gostaria de ver investigações destas nas supostas corrupções de utilização de dinheiros públicos.

Montenegro, atual Presidente do PSD, reagiu, na minha opinião, tardiamente e mal. Talvez, devesse aprender com outros líderes de outros partidos. O poder expõe a natureza do homem e revela a essência de cada um.

Há partidos que não me identifico com a sua ideologia, mas respeito os seus líderes e admiro a sua postura por nunca deixarem cair “os seus”, amparando-os sempre e arranjando sempre lugares e lugarzinhos. Ao contrário do PSD, em que a estratégia mais parece virada para a maledicência e afastamentos seletivos, consoante as “tribos” que comandam.

Rui Rio assobiou para o lado durante o seu mandato sobre muitas coisas que ocorriam internamente. Agora, estou expectante para ver quem irá defendê-lo publicamente.

Um suposto “intocável” da política regional que, entretanto, foi apanhado como um peixe pela boca, seguia a máxima que “não existem amizades na política”. Efetivamente, sempre foi um “meio amigo” de todos. Esta falta de carácter não o fez ter a inteligência de perceber que a política é feita também de “amizades”, seja de conveniência ou não, que permita estabelecer acordos políticos que também só ocorrerão se houver confiança entre as partes. E um político só é “intocável” ou “grande” conforme a sua tribo.

Quem sucessivamente vai perdendo “tribo” fica como?

A este propósito, será bom recordar que muitas tribos africanas praticavam o comércio de escravos, vendendo prisioneiros de outras tribos rivais para os árabes e europeus. Até ao dia em que eles foram também alvo da venda.

A vida ensina-nos que é preciso tomar muito cuidado com os “amigos”. Cuidar como um tesouro os que revelam na sua essência serem verdadeiros amigos. Não significa que concordam sempre connosco. E afastar do nosso círculo mais próximo os que já nos traíram. Quem traí uma vez, traí sempre. É da sua essência. Apesar de Lao Tsé, ensinar manter os amigos sempre perto de você e os inimigos mais perto ainda. Quem quiser, pode seguir esta filosofia de Lao Tsé. Eu prefiro, afastá-los.

Clausewitz, na sua obra “Da Guerra”, afirma que “A guerra é uma atividade tão perigosa que os erros advindos da bondade são os piores”.

Apesar de todas as más experiências, continuo a acreditar na amizade e na bondade. Na certeza, porém, de que considero ser necessário ser-se muito mais inteligente na “bondade” para “ganhar” as batalhas que temos de enfrentar.

A 24 de setembro, temos novas eleições regionais. Apesar de não estarmos perante uma guerra bélica, a luta partidária para a conquista do maior número de lugares no Parlamento Regional que determinará o partido que formará governo, é uma forma de guerra na conquista do voto dos eleitores.

Terá Maquiavel razão quando afirma que a forma como a humanidade conduz os assuntos políticos é o reflexo da natureza humana violenta, cruel e traiçoeira?