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Análise

Comportamentos “suicidários”

Em 1997, em reportagem pelo DIÁRIO, encontramos nas serras do Porto Moniz uma autêntica montanha de garrafas. Entre a vegetação brilhava o produto final da recolha selectiva de vidro naquele concelho, ali depositado pelos serviços municipais que se limitaram a cumprir ordens superiores. Julgava não ser possível tamanho desprezo pela natureza. Julgava que uma experiência anterior, por mim vivida no mesmo município, não tinha passado de um equívoco. Muitos anos antes, ao abrigo do programa ‘Juventude e Trabalho’, acompanhei incrédulo a descarga de lixo recolhido na freguesia numa das escarpas escondidas sobranceiras ao calhau.

Esta postura atentatória do ambiente fez escola na Região. Foi aqui que um Presidente mandou deitar ao mar as terras das obras, que se autorizaram pedreiras em cada canto, que se ordenaram extracções duvidosas de inertes em ribeiras e vales, que se varreu o delito condenável para debaixo do tapete ou para depósitos camuflados.

Como muitos vivem ainda na idade da pedra, descobre-se com frequência crimes perpetrados neste terreno minado. Na Madeira não há petróleo, mas poços envergonhados de resíduos que poluem e ameaçam o ambiente em muito lugares, com alguns a lavar as mãos, outros a imputar culpas a terceiros e os de mãos sujas a acenar com alegadas autorizações.

Enquanto a desresponsabilização for tolerada, a inspecção ambiental for branda, a investigação criminal não tiver meios para acudir a tantas frentes e ninguém for preso nada de substancial mudará. Até porque a politização excessiva das questões ambientais apenas tem servido para que o drama colectivo perdure.

“Abrir o aeroporto é suicidário”. Assim continua a pensar Miguel Albuquerque enquanto a economia regional definha, alguns críticos de outrora perdem o pio e os cancelamentos na hotelaria ganham expressão.

O tempo dirá qual o impacto da obsessão embora a mesma já explique que a TAP, à espera de injecção de 1,2 mil milhões de euros do Estado, passe impune mesmo não tendo alterado minimamente o plano polémico. A partir de Julho são dois voos por dia, o que compromete seriamente a retoma turística da Madeira nos próximos meses. Só que ninguém diz nada. Terão as autoridades regionais delegado a defesa dos interesses locais na Associação Comercial do Porto?

Ao passar de uma oferta de 1.500 lugares por dia para uns míseros 200; ao colocar um dos voos com chegada prevista à Região para a uma da manhã, a que importa somar mais hora em terra aos que forem obrigados a fazer testes; e ao vender viagens, outra vez, a preços pornográficos, a companhia aérea portuguesa atraiçoa de forma paradoxal um dos destinos turísticos do País. Por um lado, o Turismo de Portugal incentiva ao ‘vá para fora cá dentro’ ou ao ‘Tu podes’, mas no momento da verdade e com a TAP de novo nas mãos, o Estado é incapaz de ser consequente com a campanha que publicita. E enquanto este ataque à mobilidade e ao destino ganha contornos nunca vistos, o deputado social-democrata Paulo Neves, em jeito de eleito pelo círculo da emigração, insiste, e bem, na necessidade de reposição dos voos da TAP para a Venezuela e África do Sul.

O Governo Regional ainda nem falou com João Leão mas já se encarregou de dizer mal do novo ministro das Finanças. Pelos vistos, Pedro Calado não gostou que o governante tivesse respondido à deputada do PSD-M em São Bento. “Mesmo antes de falar com o Governo Regional da Madeira e de tentar articular e ‘acertar agulhas’ no quadro do relacionamento institucional com a região, o novo ministro assume, na Assembleia da República, que não está disponível para conceder a moratória das prestações do empréstimo da República, no âmbito do Plano de Ajustamento Económico e Financeiro “, alega o vice-presidente.

Já devia saber que não há uma única e estranha forma de dialogar com a República. Não é aos gritos que se edifica o futuro, não é com ódios que se constroem entendimentos, não é com guerras, ainda por cima sem armas de jeito, que se vencem batalhas que exigem diplomacia, estratégia e planos. Manifestamente falta trabalho de casa e visão, chá e sobretudo gente capaz de desbloquear dossiers pendentes em Lisboa.

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