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“Heróis e heróis”

Em Portugal chama-se “herói” a qualquer um que levante um dedo. E se envergar uma bata mal abotoada, e uma gravata em camisa de seda, holala! São heróis por exercerem ofício que dá nas vistas e é propagandeado, ou faz que carregam algo ao som de alarme e sirene. O carteiro que leva as cartas a Lisboa, ao vizinho e ao afastado familiar com a simples intenção de querer saber se está vivo e de saúde, desse nem se ouve falar. O carteiro que não pode interromper a entrega da notificação do tribunal, das finanças, do credor que lhe aviou fiado o paio com boroa, esse, mesmo fardado com colete à prova de vírus, ninguém sabe por que “perigos e guerras anda esforçado”. O pedinte, que de porta em porta, expõe a mão estendida em busca de um naco de pão, sem luvas azuis, nem açaimo nojento na boca a fim de evitar o vírus ainda mais nojento, desses e do indigente e reformado, ninguém se lembra, e para eles não haverá homenagens nem perfomances, desde a varanda da rua até ao palacete das medalhas, dos bem-intencionados e protegidos por boa vida e melhor salário, e grande assistência qualificada. Tais “operários” que exercem o que lhes está atribuído e que requer competência e consciência, aplicação e esforço, com chuva e frio, não é motivo para ganhar direito a estátua no Terreiro das vaidades. Faz apenas o que está dentro das funções para a qual o país o preparou e pagou para as ter. Certo, que nem todos se arrastaram por lá atrás da cura do paciente apanhado pelo “bicho”, agora também ele famoso, com o mesmo ardor e ao mesmo ritmo que os convictos na luta que é para vencer. A dança deu ainda para meter máscara, e fanfarra ouviu-se por todo o largo. A Comunicação Social, ajudou e fez o que lhe competia. Aumentou o ritmo, o espalhafato, e o número de “heróis”, saídos do deserto da falta de meios, de condições, conforme as queixas que dia a dia, constantemente se ouviam e liam. Foi pena não as terem para evitarem o número de mortos alargado, que comparativamente a países bem mais populosos, foi exagerado e ainda não estamos curados nem livres do “bicho”, Esperemos que a pressa de mandar crianças delicadas, frágeis para os albergues escolares, não traga arrependimento e mais sacrifício aos especialistas em varrer e desinfectar-nos da epidemia, que a qualquer momento pode levantar a cabeça e apanhar gente tão tenrinha, afastados da melhor assistência que tiveram até agora em suas casas - os pais, por quem se agarraram agora ainda mais, e de quem mais vai custar o afastamento. Mas estes também são os maiores “heróis” que eles têm e tiveram por perto e com infectados apoios e mau salário aguentaram, outros tesos como carapaus desinfectados - os pais heróis

Joaquim A. Moura

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