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Teatro da Garagem estreia ‘online’ “Mundo Novo”, visão do presente em “vídeoteatro”

Foto orge Amaral / Global Imagens
Foto orge Amaral / Global Imagens

O Teatro da Garagem vai estrear a peça “Mundo Novo”, no próximo dia 26, com a transmissão ‘online’ do primeiro episódio da obra, que poderá ser seguida diariamente via Internet, disse à Lusa esta estrutura.

Escrita a encenada por Carlos J. Pessoa, a peça “Mundo Novo” repartir-se-á por 15 episódios, com cerca de 10/12 minutos cada, que serão transmitidos diariamente, a partir da casa de cada ator, através do endereço indicado no ‘site’ do Teatro da Garagem.

Esta forma de “vídeo teatro” foi a solução encontrada para a estreia da 101.ª produção da companhia, no contexto do combate à pandemia de coronavírus, como avançou hoje à agência Lusa o diretor e encenador do grupo, com sede no Teatro Taborda, em Lisboa.

Os 15 episódios da peça serão transmitidos sempre às 21:30, ao ritmo de um por dia, acrescentou Carlos J. Pessoa.

No depoimento que escreveu para o ‘site’ do Teatro da Garagem, que dirige, Carlos J. Pessoa afirma que este é o contributo do grupo “no socorro das vagas de bondade que se esboçam nestes tempos cruéis”.

“Decidimos fazer e disponibilizar, ‘online’, o ‘Mundo Novo’, que estava previsto estrear-se no dia 26 de março [véspera do Dia Mundial do Teatro], no Teatro Taborda, em episódios filmados ‘online’, na minha casa, a partir das casas de cada ator e editadas posteriormente. São cenas incisivas, quase furtivas, trágicas e hilariantes, como incursões de uma guerrilha juvenil ou, preferivelmente, como namoros à socapa na penumbra dos dias”.

“Mundo Novo” conta a história de um homem vulgar que “se vê assoberbado pela euforia”, disse Carlos J. Pessoa à Lusa.

Este homem vive permanentemente confrontado com a ideia de um apocalipse, pois uma ameaça paira sobre o seu mundo. A relação com a mulher e com os filhos não funciona, nem sequer a relação social com outras pessoas.

“Algo, assintomático, tomou conta do quotidiano de um certo mundo recente, talvez o de agora, e é pedido aos atores que sejam prudentes, que sejam sóbrios, que tenham sentido de Estado, sentido das conveniências, numa atmosfera perigosa, contaminada pela voragem e pela vertigem do poder”, descreve a companhia.

De algum modo, “a peça ‘Mundo Novo’ adivinhava” o cenário presente, da ameaça pandémica, “previa-o, e é relativamente fácil de se colar a esta nova condição, de ensaios à distância, de encenação em emissão digital, de realidade virtualizada”, diz o encenador.

“Testemunhamos a reescrita da privação e da privacidade”, prossegue. “Procuramos refletir sobre esta deslocalização imersiva de cada um, agarrado ao seu ecrã, em viagens quiméricas, e o estado de sítio que reforça o aprisionamento”.

O protagonista de “Mundo Novo” opta pela construção de uma outra personagem -- ‘El M’ --, inspirada num universo folclórico e festivo, que lhe permite a fuga.

“Uma espécie de vagabundo dos sonhos que encontra uma série de figuras oníricas, como a Happy Bibota de Ouro, a Slogan, o Dulcineio ou a Violante, com que preenche as lacunas da sua vida”, acrescenta.

O espetáculo traduz-se deste modo num percurso “sobre as vicissitudes, alegrias e tristezas”, de um mundo “avassalador, confuso e apaixonante que, de algum modo, emula em cena os contrastes, as arrelias e a perplexidade” de um certo universo recente, reconhecível, escreve Carlos J. Pessoa, na apresentação da obra.

“Aqui chegados, vamos continuar, temos de continuar, precisamos de continuar. Fazer Teatro urge, mais do que nunca. Um Teatro que sirva a diversidade das pessoas, que as socorra na reclusão, na descrença e no desespero”, afirma o encenador. E prossegue: “Acreditamos que a peste vai passar, tem de passar, os danos são incalculáveis, mas o engenho superará o descalabro geral”.

“Nesta súbita idade (...) dos confinamentos obrigatórios, surgem abraços longínquos, dados de longe e para longe, nas distâncias necessárias. À infeção [é preciso] contrapor o afeto, ao contágio viral, o contágio da beleza”, acrescenta Carlos J. Pessoa.

“O Teatro da Garagem, das catacumbas de sobrevivência, discreta, militante, gentil, não cessará o seu impulso de dizer e fazer Teatro”, garante a companhia, no seu ‘site’.

Com texto e encenação de Carlos J. Pessoa e assistência de encenação de Ana Palma, que também interpreta, o espetáculo tem interpretação de Inês Pereira, Pedro Miguel Jorge, Rita Monteiro e Sílvio Vieira.

A cenografia e figurinos são de Sérgio Loureiro e, a luz, de Gonçalo Morais.

À partida, “Mundo Novo” será transmitida através do canal Vimeo ou da rede social Youtube, embora a via ainda não esteja definida, disse Carlos J. Pessoa à Lusa.

Até à estreia, as indicações serão dadas no ‘site’ do Teatro da Garagem, em www.teatrodagaragem.com e em www.teatrodagaragem.com/mundo-novo.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da Covid-19, surgiu em dezembro, na China, já se espalhou por 176 países e territórios e infetou mais de 220 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 9.000.

Na quinta-feira, em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) elevou para 785 o número de casos confirmados de infeção, mais 143 do que na quarta-feira. O número de mortos no país subiu para quatro.

O estado de emergência, decretado pelo Presidente da República e aprovado na quarta-feira pelo parlamento, depois de parecer favorável do Governo, prevê a possibilidade de confinamento obrigatório compulsivo dos cidadãos em casa e restrições à circulação na via pública, a não ser que justificada.

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