Mudar para salvar

Há o sentimento de pertença a uma comunidade que nos insta a sacrificar os interesses pessoais em prol do bem comum

23 Mar 2020 / 02:00 H.

As crises epidémicas sempre assustaram e mataram. Em regra, quando a crise ainda se encontra numa fase de pouca evidência ou de fraca perceção na consciência individual ou coletiva, há a tendência para se extremarem as posições entre os que preferem a adoção de medidas draconianas e os que defendem uma posição mais branda.

Confesso que as últimas semanas foram um teste à capacidade de nos adequarmos à situação de emergência e de tomar as decisões mais adequadas, bem como de as divulgar, sob a forma de notas informativas, à Academia e aos media. Na prática, houve que determinar a restrição de acesso aos Edifícios do Colégio dos Jesuítas e da Penteada, substituindo, sempre que possível, as atividades presenciais (letivas, não letivas, formativas e administrativas), por atividades executadas através de meios digitais.

Esta repentina mudança forçou evidentemente à alteração de comportamentos. Constitui também a oportunidade de experimentar soluções que, embora há muito debatidas, nunca foram aplicadas, de forma tão ampla e generalizada, como está agora a acontecer. Tanto no ensino à distância, como nas atividades não letivas ou de âmbito administrativo, verificaremos depois que muito do que se julgava impossível realizar afinal fora exequível, por via digital, e até com resultados surpreendentes.

É vantajoso vivermos numa sociedade global que coloca ao nosso dispor os recursos de uma era marcada pela investigação científica e pela tecnologia. No passado, as sociedades, por causa das doenças contagiosas (ou pestilências, como então se chamavam), foram, em muitos casos, obrigadas a decretar quarentenas. Os cidadãos ficavam efetivamente isolados e não disponham dos meios que hoje nos permitem estar confinados, embora “socialmente ativos”. É certo que há perdas, inconsistências, ausências/presenças intermitentes, faltas de contextualização e muito mais. Mas há, sobretudo, a manutenção desse bem maior que é o sentimento de pertença a uma comunidade que nos insta a sacrificar os interesses pessoais em prol do bem comum.

Não queria encerrar esta coluna sem deixar um apelo à Academia para que se mantenha unida neste ingente combate a um inimigo perigoso e invisível, que exige que mudemos para nos salvarmos. O empenho de todos (docentes, alunos e funcionários não docentes), já amplamente demonstrado, que louvamos e agradecemos, é a garantia de que, findo o período de emergência, haveremos de regressar, certamente diferentes, mas com a vontade revigorada de servir a nossa Instituição.

Sílvio Fernandes