Opositor acusa Presidente da Costa do Marfim de preparar golpe “digno de Putin”

17 Mar 2020 / 13:37 H.

O opositor e candidato à Presidência da Costa do Marfim, Guillaume Soro, acusa o atual chefe de Estado, Alassane Ouattara, de estar a preparar um golpe digno de Vladimir Putin ao promover a candidatura do atual primeiro-ministro.

“Alassane Ouattara está a preparar um golpe baixo digno de Vladimir Putin quando, em 2008, se fez substituir por Dmitry Medvedev à frente da Rússia antes de voltar à presidência em 2012”, disse Guillaume Soro, em entrevista ao jornal francês Le Fígaro.

Antigo líder rebelde, ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Assembleia Nacional, Guillaume Soro, 47 anos, está exilado em Paris desde dezembro por ser alvo de um mandado de detenção na Costa do Marfim.

Em tempos, aliado do Presidente Alassane Ouattara, o atual líder do partido “Générations et Peuples Solidaires” (GPS), entrou em rutura com o chefe de Estado, tendo anunciado a sua candidatura às eleições presidenciais no país, marcadas para outubro.

Na quinta-feira, o atual primeiro-ministro da Costa do Marfim, Amadou Gon Coulibaly, foi nomeado o candidato do partido do Governo depois do Presidente Alassane Ouattara ter renunciado à candidatura a um terceiro mandato.

Alassane Ouattara, que presidiu à reunião do Conselho Político da União dos Houphouëtistas pela Paz e Democracia (RHDP, na sigla em francês) saudou a escolha do partido e prometeu apoio à candidatura.

Com 78 anos, Ouattara está a cumprir o seu segundo mandato, depois de ter sido eleito para Presidente da República em 2010 e reeleito em 2015.

Chefe de Governo desde 2017, Gon Coulibaly, com 61 anos, fez toda a sua carreira política à sombra do Presidente Ouattara, tendo sido secretário-geral da Presidência da República até ser nomeado primeiro-ministro.

Nas fileiras do RHDP, a escolha de Gon Coulibaly não foi consensual com alguns membros do partido, a coberto do anonimato, a questionarem a pertinência da candidatura e a assinalarem a sua falta de carisma do candidato.

“Alassane Ouattara quer catapultar o seu atual primeiro-ministro, Amadou Gon Coulibaly, para a presidência e reservar a possibilidade de que este o nomeie vice-presidente, cargo a criado pela revisão constitucional”, acusou Soro.

O candidato opositor acredita que nem os antigos presidentes Henri Konan Bedié, 86 anos, e Laurent Gbagbo, 75 anos, nem qualquer líder da oposição quererão ser “cúmplices” do que considera “uma manobra grosseira”, uma vez que partido de Ouattara não tem maioria qualificada no parlamento.

Alassane Ouattara, que promoveu alterações à Constituição em 2016, acredita ser legítima a sua candidatura a um terceiro mandato, mas optou por não avançar, uma decisão que está a ser encarada pela oposição como uma manobra que permitirá ao atual chefe de Estado continuar a exercer o poder na retaguarda.

Guillaume Soro compara ainda a intenção anunciada por Ouattara de promover novas alterações da Constituição por via parlamentar a “um golpe”.

“Em primeiro lugar, tal reforma requer normalmente um longo diálogo prévio com as populações e a formação de uma assembleia constituinte para trabalhar na elaboração de uma nova lei fundamental”, disse Soro.

Apontou, por outro lado, que os regulamentos da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), à qual a Costa do Marfim pertence, proíbem a alteração de uma Constituição seis meses antes da data das eleições presidenciais.

“Será esse o caso uma vez que a nova lei deverá ser adotada pelo parlamento da Costa do Marfim na primavera e as eleições estão previstas, em princípio, para 31 de outubro”, disse.

Guillaume Soro, que é apontado pelos analistas políticos como um sério candidato às presidenciais por causa da sua popularidade entre os jovens, é acusado pela justiça da Costa do Marfim de ter preparado “uma insurreição civil para tomar o poder”.

Num caso separado, foi também acusado de desvio de fundos públicos, ocultação dos fundos desviados e lavagem de dinheiro.

As forças de segurança detiveram familiares e apoiantes de Soro, incluindo cinco deputados, a quem foi levantada a imunidade parlamentar.

Com um clima político tenso, as eleições presidenciais realizam-se quando passam 10 anos da crise pós-eleitoral de 2010-2011, que causou 3.000 mortos.