O poio (II)
Nas noites, à luz do candeeiro, a petróleo, a mãe e as filhas, bordavam noite fora, pois
era necessário ganhar mais um vintém para pagar alguma dívida, necessária ao
sustento da família ....
Os bisavós, colonos da terra, onde criaram a sua família, e com o avançar da sua
idade, lá permaneceram, ainda, cuidando de alguns dos poios, com as suas forças
diminuindo, a doença chegou, a vida foi-se fragmentando....
Eles continuaram tendo a visita de algum dos filhos, não emigrado, ajudando-os, a
que os seus dias fossem menos solitários, mergulhados na sua fragilidade, os seus
passos titubeantes, incertos, na chegada, a um outro amanhecer. Os filhos, por vezes,
enviavam algum dinheiro para ajudar na sua subsistência.
Enquanto os séniores contavam as suas histórias de vida, ao ritmo da sua memória, os
mais novos, ouvindo-as, quase que lhes pareciam irreais, num tempo, de tecnologia,
que num deslizar de dedos pelo ecrã dos seus telemóveis, outras histórias lhes
“contavam”, virtuais, distantes, diferentes das que ouviam de seus pais, vividas no
mesmo solo que agora pisavam, mas numa outra linha do tempo, e que a eles, lhes
ensinou o estoicismo e resiliência na sua Vida .....
“Os olhos deslizam pela superfície do universo, mas nada nos dá mais a medida do
real do que o passo e a mão.” (“Trocar de mãos”, José Tolentino Mendonça,
Expresso, 23 Agosto 2014)
O Poio, nosso património, material e imaterial.
“Dificilmente se encontrará um regime jurídico de exploração da terra que tivesse
introduzido tantas modificações num território, não só sob o ponto de vista social e
respectivas mentalidades, mas também sob o ponto de vista físico.” (“A exploração da
terra sob o regime da colonia no arquipélago da Madeira”, João Palla Lizardo, 2014,
pg.13)
João Freitas