A ressurreição do caos
Portugal continua a servir de corredor discreto para a guerra: basta abrir a base das Lajes e dizer que “só recebemos aviões”, como se a neutralidade fosse um exercício de contabilidade linguística e não de consciência política. À falta de outros argumentos, disponibilizamos passivamente a geografia permitida pela natureza atlântica.
Em casa, a inflação galopante encontra o seu cúmplice suave: a Comissão Europeia, perdida entre prognósticos de recessão, faturas militares e discursos desconexos, elege o teletrabalho como panaceia. Trabalhar de casa passou a ser o elogio oficial ao cansaço: não gastamos tanta gasolina nem títulos de transporte. Se a moda pegar, resta só ver o que fará tanta chefia instalada na administração pública para coordenar salas vazias.
E por falar em trabalho, o “pacote laboral” que o Governo da República não desata, continua a ser um espetáculo surrealista do teatro político português. A tal “reforma” agrada a muito poucos, mas a vaga liberal insiste em precarizar o trabalhador sob a égide dos novos tempos.
A Revisão Constitucional é mais um exercício de pose que de coragem: os ⅔ da maioria parlamentar de direita permitem teoricamente a empreitada, falta apenas abafar o medo. A nomeação de figuras para órgãos externos da Assembleia da República, como o Tribunal Constitucional, expõe um dos traços mais caricatos da política portuguesa: o PS não consegue digerir o facto de ser o terceiro partido português, e tenta compensar essa perda de hegemonia bloqueando o processo de escolhas como um menino amuado. O resultado é um Tribunal Constitucional que, em vez de ser um símbolo de independência jurídica, se torna um palco de equilíbrios partidários, com juízes que mais parecem embaixadores de blocos políticos do que guardiões da Constituição. Se não é, parece.
Quanto ao famigerado modelo de mobilidade para os cidadãos insulares, as alterações introduzidas vão ser um sapo duro de engolir para o PSD/CDS. A República não tem correspondido ao devido respeito pelos portugueses das ilhas, nem ao princípio da continuidade territorial, ao introduzir dificuldades e expedientes dissuasores à plena mobilidade nacional para os insulares. Resta saber o que farão os deputados das ilhas eleitos nesta coligação governamental: se se curvarão à lógica do centralismo de Lisboa ou se, finalmente, usarão o seu estatuto para defender os interesses reais dos seus eleitores.
Sim, o caos instalou-se e está para durar.