Fact Check Madeira

Foi hoje a primeira vez que um recluso fugiu da cadeia madeirense?

A fuga de um preso, esta quinta, do Estabelecimento Prisional do Funchal desencadeou uma operação de busca para recapturar o foragido

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Esta quinta-feira, o Estabelecimento Prisional do Funchal tem vivido um dia, no mínimo, diferente. Conforme o DIÁRIO avançou, em primeira mão, um homem, na casa dos 30 anos, fugiu da cadeia, esta madrugada, sendo, para já, desconhecido o seu paradeiro.

De acordo com a informação avançada pela Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, quando confrontada com esta situação por este matutino, “trata-se de um homem com 30 anos, na situação jurídico penal de preventivo pelos crimes de roubo e extorsão”.

A mesma fonte garante que foram tomadas todas as diligências necessárias para a recaptura do fugitivo, nomeadamente as comunicações que se impunham aos órgãos de polícia criminal e judicial.

Recluso aproveitou obras na cozinha para fugir da ‘Cadeia’

O DIÁRIO sabe que o homem de 30 anos, que na madrugada desta quinta-feira fugiu do Estabelecimento Prisional do Funchal, aproveitou as obras que decorrem na cozinha daquele estabelecimento para ‘driblar’ os guardas prisionais.

Entre o espanto e a brincadeira, nas redes sociais não faltam as críticas às falhas no circuito de vigilância do Estabelecimento Prisional do Funchal. Mas há, também, quem aponte ser esta a primeira vez que um recluso consegue evadir-se da cadeia madeirense.

Mas será mesmo assim? Será este o primeiro caso de fuga no Estabelecimento Prisional do Funchal?

Numa pesquisa nos arquivos do DIÁRIO, deduzimos logo que não. Já houve pelo menos um outro caso de fuga de um recluso. No dia 27 de Agosto de 2000, um domingo, a manchete deste nosso jornal dava conta de que o “’Pombo’ fugiu da gaiola”.

No interior, a notícia revelava que um indivíduo que havia sido detido uns dias antes, na posse de um quilo e duzentos gramas de heroína (a maior apreensão deste produto estupefaciente feita até então na Madeira, que renderia mais de 70 mil contos) se tinha evadido do estabelecimento prisional da Cancela.

O ‘fugitivo’ de então, conhecido pela alcunha de ‘Pombo, tinha, na altura, 35 anos e terá aproveitado uma falha de vigilância para escalar um dos muros do pátio interior, saltando, posteriormente, outro muro exterior.

Uns dias depois, já no início de Setembro, o DIÁRIO retomava o caso e relatava a história completa. “O recluso de alcunha ‘Pombo’, carpinteiro madeirense de 35 anos, residente no Estreito de Câmara de Lobos, detido há 3 dias, ilude o guarda-prisional que abriu a porta da sua cela, no rés-do-chão, (estava na hora do recreio - uma hora a que o recluso tinha direito). ‘Pombo’ deixa na janela que dá acesso ao pátio interior dois lençóis. ‘Pombo’ estava 'em regime de prisão preventiva. Estava só numa cela. Naquele dia era o único recluso no sector de admissão.”.

E o jornalista Emanuel Silva continua o relato: “Era fim-de-semana. O sector de admissão onde se encontrava o ‘Pombo’ ficou desguarnecido. O muro exterior’ era alto (cerca de 6 metros), mas havia uma maneira mais de o transpor”. Nos detalhes, sabemos que foi usada uma esfregona e dois lençóis.

“Teve tempo para tudo. Preparou a fuga nas noites anteriores. Tinha primos detidos no EPF mas desconhece-se se chegou a comentar a fuga com algum deles. Conhecia os cantos à casa, uma vez que já havia estado detido anteriormente na Cancela. Nessa altura, havia sido transferido do Estabelecimento Prisional de Coimbra, no continente, onde dele se conta que terá pactuado com a fuga de um colega de cela para Espanha”.

“Sábado, no dia da fuga, ‘Pombo’ amarrou os dois lençóis e fez deles uma corda. Numa das pontas amarrou um "rodo" (esfregona de borracha para limpar superfícies molhadas) para servir de gancho. Alguém se esqueceu de tirar a esfregona dali. Atirou-a para o gradeamento do corredor que dá acesso ao pavilhão gimnodesportivo. Junto à colima, na esquina existe um cano de águas pluviais que o ajudou a subir. As grades da janela de uma cela também ajudaram. Fê-lo na zona leste do Estabelecimento Prisional da Cancela, no acesso ao sector feminino”, relatou o repórter, adiantando, depois, que ‘Pombo’ apanhou um táxi no Caniço até à zona Oeste da ilha.

Aquela que era apontada como a primeira fuga na história do Estabelecimento Prisional da Madeira “só terminou na tarde do dia seguinte à evasão, quando o ‘Pombo’ foi recapturado na zona da Tabua, Ribeira Brava, onde tem familiares. Uma verdadeira caça ao homem que envolveu agentes da Guarda Prisional, PSP e PJ”.

Depois de cumprida a pena, ‘Pombo’, de nome Agostinho Figueira, saiu em liberdade em 2016 e refez a sua vida, tendo chegado a publicar um livro (‘Pombo Sobrevoa - O verdadeiro sentir da solidão’), em 2017, sendo, posteriormente, também, autor várias músicas (uma delas com o mesmo nome ‘Pombo sobrevoa’). Ambas as produções artísticas remetem para esse seu momento de fuga da cadeia madeirense.

Numa entrevista ao DIÁRIO, feita pela jornalista Érica Franco e publicada na revista D7, em Fevereiro de 2019, o autor e ex-presidiário dava conta de que a publicação relatava “as mágoas e traumas que naquele tempo viveu de forma enclausurada”. No seu livro encontramos, também, versos dedicados a Cristiano Ronaldo e vários “poemas para conquistar”.

Outros casos houve de reclusos que, estado em serviços no exterior da cadeia, no âmbito de programas de reintegração social ou em consultas médicas, fugiram ao controlo dos guardas que os acompanhavam. Uma dessas fugas, que durou algumas horas, ocorreu a 23 de Outubro de 2007, com fuga do Hospital; outra deu-se a 30 de Julho do ano seguinte, no Centro de Abate da Madeira, no Santo da Serra.

Dos factos expostos conclui-se que a fuga de um recluso hoje registada no Estabelecimento Prisional do Funchal não foi a primeira da história da cadeia madeirense.

Há quem aponte que a fuga de um recluso, esta madrugada, do Estabelecimento Prisional do Funchal foi o primeiro caso do género na história do Estabelecimento Prisional do Funchal.