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As cheias em Díli que destruíram parte da colecção de livros de Paulo Esperança

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Um mês depois de ver a sua casa alagada, com lama, água e terra em cheias sem precedentes em Díli, João Paulo Esperança, autodeclarado bibliófilo, ainda não sabe ao certo quantos livros perdeu.

“Perdi centenas de livros. Ainda nem sei bem o quê, ainda nem contabilizei tudo o que perdi”, contou João Paulo Esperança à Lusa, um mês depois das cheias.

“Sou um bibliófilo e a minha casa é aqui em Timor-Leste. Já tenho pouca coisa em Portugal e ando há 20 anos a trazer livros para cá. Há livros que são irrecuperáveis que comprei em alfarrabistas, que não estão no mercado, livros caros, edições que, hoje em dia, são difíceis de encontrar no mercado”, explica.

Os livros que não ficaram danificados estão em caixas de plástico impermeáveis, metidos a correr na tentativa de limpar e recuperar o possível.

“Os livros são muito importantes. É a minha maior dor. Não são as outras coisas, os móveis ou o resto. Mas os livros. Alguns são irrecuperáveis e há muito dinheiro investido. Acho que perdi milhares de euros nisto”, explica

“E há livros com valor sentimental que comprei em alturas complicadas quando não tinha dinheiro, ou livros oferecidos, alguns autografados”, recorda, referindo, por exemplo, a destruição de muitos livros de história e literatura do sudeste asiático.

De maior impacto foi a perda está a coleção de edições de vários países e em várias línguas de “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, obra que o próprio Esperança traduziu para tétum.

“Foi tudo para o lixo. As várias edições e as biografias que tinha do Saint-Exupéry”, explica, enquanto aponta outras coleções perdidas, incluindo tudo o que tinha relacionado com Sherlock Homes e a “sherlock-mania”.

“Felizmente de Timor não foram muitos. Foram principalmente livros que estão no mercado e que é possível recuperar”, recorda.

Professor e tradutor português, João Paulo Esperança é um dos ‘veteranos’ de Timor-Leste, onde chegou em abril de 2001 para dar aulas na Universidade Nacional Timor Lorosa’e (UNTL) no âmbito de um programa do Instituto Camões.

Desde aí, e com exceção de um ano em Portugal em 2007 aquando do nascimento do primeiro filho, nunca mais saiu do país, fazendo aqui a sua vida, atualmente como tradutor interprete destacado no Parlamento Nacional.

João Paulo Esperança vive com a mulher timorense, Fernanda Correia, e a família numa casa na zona de Bidau Santana, próximo do da Cruz Vermelha, na zona leste da cidade, a mais afetada pelas cheias sem precedentes que afetaram mais de 30 mil pessoas.

A 13 de março, quando a água da ribeira próxima galgou as margens -- consequência de assoreamento, falta de manutenção e chuvas intensas --, Fernanda Correia estava em casa com as filhas mais pequenas, uma sobrinha e outras miúdas que vivem com a família.

“A água subiu rapidamente e bloqueou a porta. Elas não conseguiam sair e entraram em pânico”, explicou.

Ele próprio estava a viver outro drama, na Escola Portuguesa de Díli, um dos locais mais afetadas pelas cheias, a resgatar os filhos: centenas de crianças tiveram que se refugiar no primeiro andar para não serem arrastados pelas águas.

“Nunca tinha visto nada assim. O pátio da casa antes estava acima do nível da estrada e nunca tivemos problemas. Mas depois fizeram recuperação da estrada e subiram muito o nível da estrada e o pátio passou a ficar mais baixo”, explicou.

Com as restrições relacionadas com a covid-19, as obras mais profundas terão de ficar para depois, mas para já está a subir a altura do pátio e a construir um muro para tentar evitar problemas no futuro.

A pensar exatamente na possibilidade da entrada de água, quando reabilitou a casa onde vive, elevou 50 centímetros a zona onde pretendia instalar a biblioteca. Mas os livros foram aumentando, a biblioteca deixou de ser suficiente, espalhando-se por outras zonas da casa.

“Gosto de livros e de promover a leitura. Num país como Timor promover a leitura é um ato extremamente importante. Aqui, o acesso ao conhecimento passa por grandes deficiências e dificuldades estruturais e os livros são essenciais”, disse.

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