A Nossa Autonomia
De todos os madeirenses, sem exceção. Está escrito nos livros de História: a Autonomia da Madeira é o resultado de uma luta que atravessou vários séculos. Não é de nenhum partido, de nenhum político, nem sequer de uma geração. As Revoltas da Madeira, os muitos momentos que as antecederam e os que lhes sucederam contam-nos essa História de luta - coletiva, comum, transversal à aspiração dos madeirenses ao longo do tempo.
A História da Madeira, que se confunde com a da nossa Autonomia, devia integrar o currículo formativo obrigatório das escolas da Região - mas não integra, apesar da Autonomia permitir fazer isso e mais do que aquilo que foi feito com ela, ao contrário da narrativa vigente de quem diminui o seu potencial apenas como justificação para as suas próprias insuficiências governativas. E devia ser ensinada a todos os madeirenses para que nenhum, agora ou no futuro, seja enganado sobre de onde vem, o que é e para o que pode servir a nossa maior ferramenta de desenvolvimento regional.
Se havia dúvidas de que a Autonomia não é do PSD ou do Governo Regional, liderado pelo mesmo partido desde as primeiras eleições, elas ficaram completamente dissipadas no primeiro feriado regional que a assinalou e aos 50 anos da Constituição que a consagrou: não fizeram nada com ela - nem com a data, nem com o seu simbolismo, nem com as comemorações e, muitas vezes, nem com os poderes que ela nos conferiu. Recentemente, por exemplo, não fizeram nada com ela na redução do IVA, que permitiria responder melhor ao aumento do custo de vida, dos alimentos aos combustíveis, provocado pelo conflito no Médio Oriente; não fizeram nada com ela na execução do PRR, que deixou pelo caminho lares e centros de saúde por construir; e pouco fizeram com ela na crise da habitação, que faz nascer T1 a 650 mil euros, por empresários ligados ao regime que aparecem a reclamar da carga fiscal que “penaliza” o negócio do luxo a que se dedicam.
É essa a História mais recente da Autonomia: limitada na sua execução e na sua implementação pela estratégia cada vez mais curta de um partido sem rumo para a Madeira. Reconhecer essa parte da História da Autonomia é saber que o problema de Alberto João Jardim esteve quase sempre nos métodos e que o de Albuquerque, mais grave ainda, soma a piores métodos a completa ausência de visão ou de resultados. É saber que uma e outra coisa não são a mesma, porque a cópia é sempre pior do que o original. E perante a manifesta incapacidade de fazer mais com a Autonomia que temos, resta a panfletária conversa repetida até à exaustão de que, para fazerem mais, precisam de mais ferramentas e mais dinheiro ainda, apresentada aos madeirenses como a solução para todos os problemas - uma lista de compras, um rol infinito de exigências, de reivindicações, de concretizações adiadas de quem não faz mais com aquilo que tem, nem deixa fazer. Não é a Autonomia que limita a Madeira, mas sim os limites de quem a governa. Uma Região em gestão corrente, qual aeroporto sem aviões ou real plano de contingência em dia de tempestade.
Cada madeirense terá, certamente, a sua visão sobre o que é a Autonomia. Sobre as suas virtudes e as suas limitações. Sobre as suas conquistas e as suas derrotas. A minha é a de quem não ignora o como, a forma, o que ainda não foi feito, o que continua por fazer e, por isso, se mantém politicamente distante de quem apregoa que somos os melhores do mundo, em tudo. Não somos, apesar de termos alguns dos melhores. A Autonomia de todos os madeirenses, a do dia a dia, tem tradução concreta nas dificuldades que sentimos, que enfrentamos, que por vezes superamos e outras não - mas tem também expressão nos feitos que construímos juntos e nas conquistas dos nossos que festejamos. Autonomia também é Marítimo e CAB na primeira, como marcas de uma Região que se impõe com mérito. É Cristiano Ronaldo e Naza114, oriundos de bairros sociais, como os maiores nomes de sempre naquilo que fazem. São os que brilham cá dentro e lá fora, orgulhosos da nossa bandeira.
Autonomia é inconformismo, é querer mais, é construir uma alternativa para uma Madeira melhor - com mais reflexão e opinião própria e menos caixas de ressonância que correm atrás do discurso vigente, seja sobre campos de golfe, seja sobre sistemas fiscais próprios que ninguém sabe dizer bem o que são, como se aplicarão, ou que resultados terão, numa Região com a maior inflação do país, um setor exportador dependente do turismo e um território com limitada autossuficiência financeira.
Nos 50 anos da Autonomia, sobram, pelo menos, duas certezas: a de que a Madeira poderá aspirar a muito mais, se tiver ainda mais Autonomia, mas também a de que a Madeira poderá aspirar a muito melhor, com a Autonomia que já tem, se tiver melhores protagonistas. Se queremos Autonomia para ir mais longe, então escolhamos quem nos leve lá.