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Eleições

Não há organizações perfeitas. Tudo o que tenha a nossa mão terá sempre a imperfeição associada

1. Disco: O amigo Manuel Morais teve a amabilidade de me enviar o último disco dos Segréis de Lisboa. Os Segréis são uma referência mundial no que à “música antiga” diz respeito. “O Alaúde na Península Ibérica (Séc. XV-XXI)” é um excelente trabalho. Para estes dias de reflexão.

2. Livro: “Uma História da Guerra”, de John Keegan, foi o livro que escolhi ler após semanas de intenso trabalho. Uma escrita densa, mas nunca demasiado técnica. Muito para além do que podemos esperar encontrar, deparamo-nos com uma espécie de “antropologia da guerra”. Um livro imprescindível para quem se interessa pelo tema.

3. De regresso. E com saudade. Gosto muito desta participação que tenho nas páginas do decano. Aviva-me a mente, obriga-me a procurar saber mais e a pensar os temas que aqui trago. Neste entretanto, a minha vida mudou e estou em fase de adaptação a uma nova realidade.

4. Será imprescindível deixar aqui umas apreciações sobre as eleições de 24 de Setembro. Com muita dificuldade tentarei olhar de fora. Não será fácil uma vez que fui um dos actores. Desculpem-me se por vezes acontecer parecer tendencioso. Está tudo muito presente e tanto as eleições, como o que se lhe seguiu, são acontecimentos muito recentes. Ainda não pousaram o que faz com que o que se diga esteja apoiado neste “recentismo”.

5. A campanha. Só quem lá anda consegue perceber o difícil que é um partido pequeno fazer uma campanha. Equipas curtas que fazem de tudo, dificuldades orçamentais que obrigam a ginásticas incríveis, riscos que se assumem no modo como se visa passar as mensagens, tensão constante, decidir em cima de tudo o que acontece, e “stress”, muito “stress”.

O querer fazer acontecer dá muito trabalho. Poucas horas de sono com intermináveis conversas com o travesseiro. Uma tendência quase incontrolável de querer estar em todo o lado ao mesmo tempo. É uma excelente ocasião para aprendermos a confiar nos outros, para aprendermos a delegar, a não nos preocuparmos com tudo e mais alguma coisa.

A angústia do planeamento que constantemente tem de ser alterado. Tudo adaptar para poder integrar o maior número de comunicação social nos eventos que se promovem. O que era para ser, num ápice, perde o lugar porque é preciso reequacionar para não perder a oportunidade de poder passar a mensagem. É assim nas organizações pequenas, creio que o não seja nos ditos “grandes” da política regional.

Deixo aqui uma palavra de apreço aos jornalistas, que se desdobravam em muitos para conseguirem cobrir tudo o que se passava.

Não há organizações perfeitas. Tudo o que tenha a nossa mão terá sempre a imperfeição associada. Minimizar o erro, lidar com ele quando aparece, assumir a responsabilidade. São estes os passos que se tomam numa base diária e por vezes quase horária.

E no final de tudo isto fica um enorme vazio. Como se tivéssemos largado algo que nos abafava, mas que fazia parte de nós.

6. Os resultados. Vão chegando a conta-gotas e indicam tendências se os compararmos com resultados anteriores. Se houve uma coisa que tínhamos razão foi o que mexe com o Voto Antecipado e em Mobilidade. Desde Dezembro do ano passado que a Iniciativa Liberal fez uma intensa campanha para os madeirenses poderem votar antecipadamente e em mobilidade. Como o fazem todos os portugueses, madeirenses incluídos, nos restantes processos eleitorais. Em 2022, nas legislativas nacionais, cerca de 7 mil madeirenses usaram este direito de participação para cumprir com o seu dever. Nas eleições da Madeira, nas nossas eleições, não se permitiu que isso acontecesse. Usou-se o retorcido método que permite que os jovens estudantes, pessoas doentes, presos, militares e forças de segurança, atletas, ferroviários (?) e rodoviários (?), possam votar depois de um processo cheio de burocracia como gosta a administração pública. Resultado: votaram este sistema enviesado menos de mil madeirenses. Aumentou a abstenção e, logo, a participação. Agradeçam ao PSD e ao CDS que chumbaram na ALRAM a possibilidade deste tipo de voto.

Um dos nossos objectivos era o de eleger um grupo parlamentar. Demasiado ambicioso para quem nem um deputado tinha? Claro que sim. Mas o ser liberal é ter ambição, é não ser acomodado. É querer. A ambição é um dos motores do desenvolvimento. A ambição tem de ser parte de nós.

Que não cumprimos o que pretendíamos atingir? É óbvio, os resultados demonstram-no. E só há um responsável: eu, porque primeiro responsável por tudo.

7. O “Day After”. Medida a medida, ponto a ponto, orçamento a orçamento. Disse-o com clareza no final da noite eleitoral. É difícil perceber que com isto nos púnhamos de fora de qualquer tipo de acordo? É preciso um desenho? Há por aí muitos, demasiados, que tudo confundem e ficam-se pelo que lhes dá jeito ouvir. Admitir conversar é estar disponível para ouvir quem entende ter algo para dizer. E para isso estaremos sempre disponíveis, porque responsáveis.

Apresentem-nos propostas que não sejam redutoras de liberdade, que não ponham em causa direitos individuais, que tenham a ver com desburocratização, com transparência e combate à corrupção, ao compadrio, ao nepotismo, ao cartão partidário, que criem condições de desenvolvimento e criação de riqueza e, venham de onde vieram e terão a nossa concordância. Nunca estaremos do lado do estatismo, do assistencialismo e do colectivismo. Estaremos sempre do lado da autonomia individual e da capacitação dos madeirenses. Tudo o que não tenha a ver com isso, não terá o nosso apoio. É simples de entender, para quem não vive com as habituais palas que reduzem a visão periférica.

8. Registo a preocupação dos socialistas do PS. Ao invés de olharem para o miserável resultado que alcançaram, voltando aquilo que sempre foram, e concluírem das razões do desastre, trataram de arengar, nos dias seguintes, as habituais parvoeiras que arranjam sempre para sossegar a consciência. Foi ler longos e retorcidos textos a culpar os outros das virgulas de maneira a não terem de olhar para os seus parágrafos. Ponham lá ponto final nisso. Os socialistas madeirenses adoram a autofagia e o inventar conversas sem sentido para tentar fazer passar a ideia de que a culpa “é sempre dos outros meninos”. Cresçam caramba! Já não há pachorra.