Verbas para adaptação às alterações climáticas são poucas e desadequadas

17 Nov 2018 / 06:05 H.

O financiamento para a adaptação às alterações climáticas em Portugal é escasso e desadequado, segundo as conclusões e um inquérito aos participantes de um seminário sobre o tema, hoje realizado na Figueira da Foz, distrito de Coimbra.

De acordo com os dados de um inquérito hoje realizado entre os participantes na conferência - promovida pela autarquia local e que juntou representantes da Rede de Municípios para a Adaptação Local às Alterações Climáticas, especialistas e investigadores universitários e técnicos das áreas do ambiente e ordenamento do território, entre outros - 82% classificam o financiamento disponível como “pouco e desadequado das prioridades locais”, 15% definem o dinheiro existente como “pouco mas adequado” e 03% como “suficiente mas desadequado”.

Os resultados do inquérito estão em linha com uma das conclusões do seminário, expressa na sessão final da reunião por Ana Queiroz do vale, da Câmara Municipal de Sintra, o financiamento “é um dos grandes entraves à actuação dos municípios” e “está encaixotado em processos burocráticos”.

“Não existe financiamento plurianual e não é assim que se pode preparar a acção”, adiantou.

Outras conclusões adiantadas por Ana Queiroz do Vale apontam para que se pense nas necessidades de adaptação às alterações climáticas “como oportunidades” e que as pessoas, embora devam “experimentar a realidade” dos seus efeitos “não tenham todas de ter experiências dramáticas”, como as que a população viveu com os incêndios florestais ou a recente tempestade Leslie.

Ana Queiroz do Vale destacou ainda o papel crucial dos municípios nas políticas de adaptação, desafiando os autarcas a actuarem em rede “porque nas alterações climáticas as fronteiras administrativas não existem”.

“Cada vez mais necessitamos de políticas de acção flexíveis”, defendeu a representante da autarquia de Sintra.

Os dados do inquérito aos participantes revelam ainda que 47% dos eleitos locais dão “alguma importância” às alterações climáticas e 30% pouca importância e que apenas sensivelmente um em cada cinco autarcas (22%) dá muita importância ao tema.

A importância da participação dos municípios portugueses em redes e projectos europeus de adaptação climática é considerada de total ou de bastante importância por 92% dos participantes no seminário e a falta de interesse político apontada por 60% das pessoas como razão para não haver mais municípios com estratégias e planos municipais específicos, seguido da falta de informação e falta de financiamento, ambos critérios que recolheram 19% de respostas.

O inquérito conclui ainda que 98% da população portuguesa possui “pouco ou algum conhecimento” sobre os impactes das alterações climáticas, dado que levou Sérgio Barroso, especialista do Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urbano a considerar “bastante evidente” que esta é uma área “onde há muito a fazer”.

O inquérito considera ainda “muito importante” (45%) e indispensável (39%) a participação dos cidadãos na definição das opções de adaptação.

Já sobre questões específicas relacionadas com prioridade de adaptação na orla costeira, 62% aposta na recuperação dos sistemas dunares, 14% em medidas como a retirada de edificações de zonas de risco e a colocação de sedimentos em praias e 11% na construção de novas estruturas fixas de proteção.

À pergunta “qual deve ser a prioridade para reduzir a vulnerabilidade às secas em Portugal”, a maioria dos participantes (70%) aposta na reabilitação das redes de abastecimento para reduzir perdas (37%) e no aproveitamento da água da chuva para rega urbana (33%), com apenas 13% a defender a construção de novas barragens.

A razão pela qual Portugal “é tão vulnerável aos incêndios florestais” deve-se à falta de ordenamento florestal, resposta de 57% dos participantes, enquanto 31% defende que decorre do abandono do mundo rural.

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