Recolha de comida e medicamentos para a Venezuela juntou meia centena no Porto

12 Fev 2019 / 23:39 H.

Cerca de meia centena de pessoas reuniram-se hoje no Porto para uma vigília pela Venezuela, recolhendo alimentos e medicamentos para enviar para aquele país latino-americano, que atravessa uma crise social e política.

Numa data em que se assinala o dia da Juventude Venezuelana, marcado por manifestações de ambos os lados do espetro político na Venezuela, a Praça da Liberdade e a Avenida dos Aliados, receberam também apoiantes de Juan Guaidó, numa iniciativa organizada por jovens.

José Alves, de 22 anos, presidente da Jovenex -- uma rede de jovens venezuelanos no mundo -, chegou há meio ano a Portugal e no discurso que dirigiu aos participantes, disse que se está em presença de uma “batalha física e espiritual” e que o objetivo “não é só fazer ruído contra [Presidente Nicolás] Maduro, mas sim reconstruir o país”.

“Como jovens estamos convencidos de que a espiritualidade pode ajudar nisto. Estamos há mais de quatro anos a enviar medicamentos, através de envios privados de avião. É importante que o Governo português apoie a ajuda humanitária, porque há muitos portugueses a morrer de fome e outros que morreram por falta de medicamentos”, afirmou, em declarações à Lusa.

O estudante em Línguas Aplicadas acredita que o bloqueio à ajuda humanitária -- por parte de Nicolás Maduro - pode ser resolvido com a “pressão do Governo português”, mas ainda assim acredita que o futuro do país passa pelas mãos de Juan Guaidó.

“Não o apoiamos por sermos apoiantes dele, mas sim porque apoiamos a Assembleia Nacional e a nossa Constituição e o que ela diz é que Juan Guaidó tem de assumir a presidência interina da Venezuela”, explicou.

Susana Correia, de 22 anos, foi a primeira da sua família a chegar Portugal, há quase quatro anos, com os irmãos a seguirem as suas pisadas um ano depois, mas os pais e a irmã mais nova de três anos, continuam no país do qual procuram sair.

“É muito complicado... Sinto-me agradecida pelo acolhimento, mesmo as pessoas da faculdade tiveram uma certa sensibilidade comigo e a minha situação. Mas eu sei que os meus pais não estão tão bem como eu. Às vezes a minha mãe não consegue levar a minha irmã de três anos para a escola durante duas semanas”, confessou.

A estudante de Línguas e Relações Internacionais, descendente de portugueses, indicou que saiu do país devido à situação em que se encontrava e que tem vindo a piorar, com a “falta de medicamentos e comida” e a deterioração da economia que impede os pais de abandonarem a Venezuela.

“O meu pai tem uma pequena empresa e não quer deixar tudo lá e começar de novo aqui. É difícil para uma pessoa adulta que está habituada a ter as suas coisas, abandonar tudo e tentar encontrar emprego cá. A minha mãe também tem medo por causa da minha irmã pequena. Mas o meu pai sempre disse que prefere viver com menos dinheiro e mais qualidade e é isso que eu o recordo”, apontou.

Já Rina Cruz, comercial de 45 anos, saiu da Venezuela há 27 anos, numa altura em que viu Portugal “a crescer” e o seu “país a ficar para trás, na mudança das pessoas e nos prédios abandonados” e confessa não visitar a república bolivariana há 7 anos, por sentir que fica lá um pedaço seu cada vez que regressa.

“[A situação] é revoltante, mas pelo menos consigo ver uma luz ao fundo do túnel, têm sido uns anos muito precários. Tenho lá a minha mãe, irmãs, muita família e é muito difícil arranjarem alimentos e medicamentos. Agora estamos a ver que há uma esperança pelo menos”, referiu.

Aplaudiu a decisão do Governo português de reconhecer Juan Guaidó como presidente, assim como a “qualquer outro governo que tem apoiado” o político de 35 anos, porque isso dá “credibilidade e força às pessoas”.

“As iniciativas têm feito com que as pessoas olhem para o nosso país. Ás vezes explicava o que se estava a passar na Venezuela e as pessoas não acreditavam ou não percebiam. Agora as pessoas entendem melhor e acreditam que se passa algo de grave lá e que temos de acordar”, sublinhou.