Consciência política dos ciganos portugueses é recente, mas evolução é surpreendente

20 Nov 2018 / 21:07 H.

A consciência política dos ciganos portugueses é recente, mas a comunidade tem dado passos surpreendentes, defendeu um responsável do Conselho da Europa, segundo o qual os ciganos europeus estão a organizar-se para influenciar as próximas eleições europeias.

Lisboa recebeu na terça-feira, no âmbito do Conselho da Europa, um encontro internacional de países com iniciativas de formação política, sendo que Portugal tem a decorrer a academia de política cigana, cujo terceiro encontro decorreu na Figueira da Foz, entre 16 e 18 de Novembro.

Em declarações à agência Lusa, Marcos Andrade, da Unidade de Parcerias Estratégicas -- Equipa Ciganos e Viajantes, que tem coordenado diversos programas de mediação cultural e integração das comunidades ciganas, explicou que a academia de política foi uma das formas que o Conselho da Europa encontrou para impulsionar a consciência e a participação políticas dos ciganos em alguns países europeus.

De acordo com Marcos Andrade, as comunidades ciganas portuguesas só recentemente começaram a “despertar” para o seu papel como actor político importante e que pode reivindicar e alcançar algumas das suas aspirações.

“É importante dizer que apesar de ser recente, os passos que a comunidade [portuguesa] tem dado nos últimos anos são surpreendentes e surpreendentemente positivos, quer nessa consciencialização como actor político, quer em activar a sua participação”, defendeu.

Na opinião do responsável, a comunidade cigana em Portugal “é vítima de várias periferias”, desde a geográfica até à cultural, desde logo porque o próprio país também está ele próprio na periferia “relativamente a um conjunto de questões de participação europeia”.

“Os ciganos em Portugal são também uma periferia em relação à participação que os ciganos europeus já estão a ter há muito tempo e em vários circuitos”, apontou.

Explicou que os motivos para que isso aconteça estão relacionados com o facto de a comunidade em Portugal ser pequena e ter-se afastado do “imaginário colectivo que é o cigano europeu”.

“Os ciganos têm uma estratégia a nível europeu e estão organizados. Os ciganos portugueses começam agora a participar mais activamente nesse espaço também”, sublinhou.

Marcos Andrade frisou que o que acontece em Portugal é semelhante ao quadro europeu, em que o peso da comunidade cigana no espaço público e no espaço político “não é representativo do seu peso demográfico”, apesar de já haver dirigentes ciganos que conquistaram um lugar como autarcas ou deputados.

“Isso acontece porque há um processo de falta de integração da comunidade cigana, discriminação, que faz com que as comunidades ciganas estejam alheadas da participação”, defendeu, acrescentando, por outro lado, que por parte dos ciganos há também falta de motivação para a participação política.

O responsável do Conselho da Europa disse que a comunidade cigana tem dado sinais de querer colmatar essa lacuna e que prova disso está no facto de, por exemplo, neste momento estarem a fomentar um “debate forte” sobre como podem influenciar as próximas eleições europeias.

Destacou, a propósito, que as estimativas do Conselho da Europa apontam para cerca de 18 milhões de pessoas ciganas nos seus estados membros, o que poderá representar perto de sete milhões de eleitores.

Relativamente a Portugal, Marcos Andrade apontou que “há municípios onde a comunidade cigana pode definir, votando em bloco e em função dos seus interesses, quem é que faz as maiorias nesses sítios” e que é a consciência desse poder que eles estão a aprender nas comunidades de política.

Marcos Andrade adiantou que as academias de política cigana estão implementadas em Portugal, Grécia, Ucrânia, Bósnia-Herzegovina e Turquia e revelou que o Conselho da Europa tenciona implementá-las também no Reino Unido, França e Alemanha.