Câmaras da região do Porto elogiadas por medidas sobre uso de glifosato

Porto /
19 Mai 2019 / 04:03 H.

Um dos grupos que ontem promoveram no Porto uma marcha contra os agroquímicos declarou-se satisfeito com a adesão de câmaras daquela região à sua campanha para privilegiarem alternativas ao glifosato, potencialmente cancerígeno, nas limpezas de espaços públicos.

“Estamos a fazer uma intervenção junto das entidades camarárias para que acabem com a limpeza das vias públicas com herbicidas com glifosato”, disse à agência Lusa Vanessa Ferreira, dirigente do grupo cívico “Porto sem OGM” (organismos geneticamente modificados), que sublinhou já ter conseguido que municípios como Vila Nova de Gaia, Gondomar ou Valongo optem por alternativas ou admitam fazê-lo.

O protesto do Porto contra o recurso exagerado a agroquímicos, tal como os realizados em simultâneo noutras cidades estrangeiras, teve como principal alvo a empresa Monsanto, detida pelo gigante químico Bayer.

A empresa foi recentemente condenada por um tribunal de júri norte-americano a pagar uma indemnização no valor de 1,8 mil milhões de euros a um casal que responsabilizou o herbicida Roundup pelo cancro de que sofre.

“Glifosato é veneno na sua comida”, “pesticida acaba com a vida”, “glifosato à sorte é perigo de morte” eram algumas frases que se podiam ver em cartazes e pendões empunhados por dezenas de participantes na marcha do Porto, realizada entre o Largo dos Poveiros e a Praça D. João I.

O dirigente do grupo “Espaço Musas” Luís Chambel leu aos presentes uma declaração explicando que se juntava à marcha “denunciando a Bayer/Monsanto como entidade responsável pela introdução dos mais danosos pesticidas e transgénicos nos campos de todo o planeta”.

Para o Espaço Musas, a Bayer/Monsanto “é apenas um dos muitos rostos do capitalismo sem ética e sem alma”, com um modelo de negócio assente na monocultura e na “destruição acelerada” do planeta.

“Esta marcha mundial é um apelo à ação com vista a sensibilizar e informar o público sobre os perigos que os organismos geneticamente modificados e os agroquímicos representam para a nossa saúde e para o ambiente”, referiu, por seu lado, a organização ambientalista do Porto Campo Aberto, que apoiou, em comunicado, os objetivos desta marcha.

Ao protesto do Porto associaram-se partidos como “Os Verdes”, o Bloco de Esquerda e o PAN -- Pessoas, Animais e Natureza, através do deputado André Silva, que elencou à agência Lusa diversas iniciativas legislativas do seu partido relacionadas com os objetivos da marcha, nomeadamente para redução drástica da exposição dos portugueses ao glifosato e para proibição da venda deste herbicida para usos não profissionais.

As iniciativas surgiram na sequência de um estudo realizado em 2018, em que se envolveu o próprio deputado André Silva e que revela que a contaminação da população portuguesa com glifosato é generalizada.

Ainda neste âmbito, o PAN levou a debate na Assembleia da República, em fevereiro, um diploma para tornar mais transparentes as regras de informação sobre a presença de organismos geneticamente modificados em produtos de origem animal, refeições preparadas e produtos não embalados. O diploma, assinalou o partido, contou com a com oposição do PS, PSD e CDS-PP.

A iniciativa do PAN, referiu, “seria facílimo implementar” e tem de ver com a imposição de análises à presença de glifosato na água para consumo humano.

“Hoje todos as empresas que fazem captação de água para consumo humano são obrigadas a fazer análises periódicas à agua com vários indicadores. Era só colocar na lei a análise de mais este indicador, porque as pessoas podem estar a ser contaminadas por glifosatos não só através dos alimentos, mas também das águas que estarão a ser contaminadas pela agricultura”, disse André Silva.

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