Vou ali e já venho

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15 Abr 2019 / 02:00 H.

1. Pelo menos até depois das eleições, vou suspender a minha colaboração nestas páginas. A partir de hoje, sou oficialmente candidato ao Parlamento Europeu e não me parece cordial continuar a escrever aqui. Tudo o que aqui foi escrito, foi-o com total liberdade e só tenho a agradecer ao Diário o facto de não me ter chamado a atenção, nem para uma simples vírgula. É assim que tem de ser. Se assim o entenderem, retomarei a minha prazenteira colaboração, depois do processo eleitoral que se avizinha.

2. Hoje, deixo-vos com uns textos que foram ficando para trás. Às vezes escrevo demais. Não os quero dar como desperdiçados e, assim, aqui ficam.

3. A ver se nos entendemos. Estou farto de hipsters, arremedo de hippies e pseudo-preocupados com o mundo. Aqueles gajos que se preocupam com tanta coisa que não conseguem expressar preocupação sobre coisa nenhuma não vão eles, pelo caminho, esquecer-se de qualquer coisa com que se deviam ter preocupado. Pode parecer confuso, mas é assim mesmo. Não fazem uma porra por ninguém porque, senão, teriam que o fazer por toda a gente e, como isso é impossível, é melhor ficarem quietos. Têm um indignómetro na mão com que medem a indignação de toda a gente e, com base nisso, arranjam a única coisa que os indigna: o facto dos que não são como eles se indignarem com umas coisas e deixarem outras tantas e muitas de fora. E esta indignação é melhor e mais completa do que as outras todas juntas. Não são Charlie, não são Paris, porque se podem esquecer de ser Quénia ou o Silva da Praça, que é sem abrigo. Têm nomes cheios de estilo e acham-se uma tribo de muito poucos. Quando eu era mais novo, eram só tontos, espertalhaços que não coisam nem saem de cima.

Sempre que acontece uma desgraça no mundo, lá vêm estas figuras com a treta do “ser ou não ser Charlie”. Ora bem, pacientemente, vou voltar a tentar explicar, como se estivesse a falar para um puto de cinco anos: o ser “Charlie” tem a ver com o facto de se reconhecer o direito, a seja lá quem for, de dizer aquilo que quiser e entender. Voltando ao início, eu não concordo nem acho graça a mais de 90% do que é publicado no “Charlie Hebdo”, mas estarei sempre na primeira linha da defesa do direito que têm de o fazer. É isto que é “ser Charlie”. Pensar que isso me obriga a concordar, não só é idiota como também demonstrativo de pseudo-soberba intelectual. Sou e serei “Charlie”, porque estarei sempre empenhado na luta por uma total e absoluta liberdade de expressão. Nunca, por nunca, porei em causa o direito, que quem quer que seja tem, de publicar e dizer o que bem quiser e entender. E, pela minha parte, tenho todo o direito de, em relação ao conteúdo, com ele concordar ou não. E é essa a minha liberdade e dela não abdico nem admito que a ponham em causa. Mas concedo que as grilhetas ideológicas amarrem o discernimento de alguns e que não consigam ver as diferenças.

4. Com esta última coisa que aí anda, e bem, a indignar toda a gente, a questão dos “jobs for relatives”, descobri que em castelhano o termo que se usa para designar o nepotismo é “enchufismo”. Gosto muito mais. Vem de “enchufar” e isto soa-me a qualquer coisa que se mete dentro de... E é esse o caso. Por exemplo, o Nacional “enchufou” 10 do Benfica e isso bem me irritou. O perú no Natal “enchufa-se” com um recheio que, às vezes, é melhor do que a carne do recheado. Tenho o armário do quarto “enchufado” de camisas que não me servem. Carlos César “enchufa” uma data de familiares em lugares de nomeação política e não só. Por cá, também há uns quantos PSD’s e PS’s bem “enchufados”.

Que viva “el enchufanso”!

5. O amor à Pátria não tem, em absoluto, nada a ver com o amor ao Estado. E é bom que se ponha isto na cabeça, uma vez que vejo por aí derivas perigosas de amor pela máquina quando o amor deve ser pelo coração.

6. Adoro os alentejanos.

Adoro aquela falta de religiosidade que têm as pessoas livres.

Amo aquele desprendimento de quem se está a marimbar.

Degusto, com enorme prazer, a sabedoria de criarem pratos brilhantes feitos com quase nada.

Fecho os olhos ao som telúrico de um coral alentejano e do seu “cante”.

Gosto da dolência do falar, qual brisa que desce o monte num final de uma tarde de calor.

Derreto-me com o tanger de uma campaniça na praça de uma qualquer vila.

E aquelas caras maltratadas pelo sol.

E as mãos calejadas pela foice que cortou o trigo.

E o vinho e as açordas. E os secretos e bochechas.

E o azeite.

E as praias que nunca mais acabam.

E as botas e o capote.

Suicidam-se mais que os outros? E depois? Se calhar sabem coisas que nós não sabemos.

7. Termino:

A todas as tribos, profissões, credos, ideologias, sentires, pensares...

Aos que acreditam que é anda possível tomar o nosso destino em nossas mãos...

Aos que entendem que todos juntos somos um e formamos uma maré incontornável...

Aos que sabem sermos um sentido e muitas direcções que não levem a lado nenhum porque se completam a si próprias.

Que somos o resultado da fusão de todas as culturas, contraculturas, subculturas, de todos os movimentos e sentires.

Seres individuais portadores de cultura própria e irrepetível.

Que contra tudo e contra todos. Pró tudo e pró todos.

Que diferentes e diferenciados.

Aos que acreditam no seu potencial. Venham eles de onde vierem.

Aos que sabem ser o resultado de uma cultura activa, revolucionária, interveniente, reaccionária, proletária e elitista, de todos e para o mundo.

Aos de todas as cores e todas elas muito bem individualizadas.

Porque futuro, presente e passado num só.

Seremos “big-bang”. Explosão e implosão.

Aos que sabem que viver é ter o mundo numa mão e a minha rua no coração.

É querer justiça e abominar a legalidade.

É ser identidade e tradição.

É saber parar para ver.

Aos que são duas linhas paralelas que se encontram no infinito.

Aos que são textura e sabor. Cor.

Aos que têm um pincel numa mão segura.

Aos que são raiva cheia de amor.

A todos.

A cada um de nós.

É chegada a hora de sermos e não de parecermos.

Em ano de eleições é importante a presença de todos. É fundamental a presença de todos.

É chegada a altura de levantar o rabo e sair do sofá, de desligar o ecrã e largar o teclado.

Este é o ano de todas as eleições.

Todos os actos eleitorais serão dias da responsabilidade de ir, de estar, de ser.

Votem. Não interessa em quem, nem como.

Votem!

Nuno Morna

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