Um mundo dividido

22 Mai 2020 / 02:00 H.

Uma das decisões difíceis de tomar nestes tempos de pandemia foi e continuará a ser qual o grau de confinamento a impor às populações e a velocidade de regresso à nova normalidade, isto porque como já todos percebemos o confinamento provoca um abrandamento do ritmo de contágio, mas ao mesmo tempo leva a grandes perdas do ponto de vista económico.

Ao obrigar grande parte da população a ficar em casa, ao encerrar os possíveis locais de encontro das pessoas, ao encerrar as fronteiras, o governo está a diminuir as hipóteses de contágio fazendo com que o Serviço Nacional de Saúde tenha ou vá adquirindo capacidade para tratar dos infetados e não se alcancem situações de rutura como vimos noutros países. Contudo, estas medidas provocaram uma grande crise económica para a qual temos que encontrar maneira de a ultrapassar. Menos doentes traduziu-se em mais trabalhadores em layoff ou desempregados que o sistema tem de apoiar e encontrar o caminho para a retoma num ambiente de muita incerteza.

A reabertura da Economia vai ser uma grande incógnita porque os consumidores não estão com o espírito que estavam em 2019 em que sair, ir às compras ou ir a um restaurante não implicava riscos de maior. Agora todos sabemos que o vírus pode andar por aí e que numa dessas saídas podemos apanhá-lo e transmiti-lo e vamos pensar duas vezes sobre se será assim tão importante o que planeávamos fazer.

Como costumo explicar aos meus alunos, nunca deixámos de fazer algumas atividades mesmo sabendo que têm riscos. O melhor exemplo é andar de avião, em que mesmo antes de levantar voo nos relembram os procedimentos que temos de ter caso algo de mal se passe. Só que neste caso, como sabemos as estatísticas que mostram que andar de avião é um dos meios de transporte mais seguro, relaxamos, respiramos fundo e antecipamos os bons momentos que iremos ter após a viagem terminar.

No extremo oposto da atividade com risco está a roleta russa, em que cada jogador aponta à cabeça uma pistola que tem uma bala, havendo a probabilidade de 1 em 6 de ao disparar o tiro provocar a morte. Acho que quase ninguém jogaria este jogo mesmo que o prémio seja muito grande.

O mundo com COVID19 vai ser um mundo em que os jovens e saudáveis viverão com o risco de ter problemas de saúde graves devido à epidemia igual à de terem um acidente grave se andarem de avião, enquanto os idosos com mais de 80 anos terão a probabilidade do jogo de roleta russa de morrer se apanharem o vírus. A entrada do vírus nos lares e as mortes resultantes mostram que a imagem da roleta russa não é uma fantasia.

Por esta razão o mundo não voltará à normalidade de 2019, pois uns tudo farão para que sejam tomadas medidas que evitem ao máximo a propagação enquanto outros quererão que as medidas restritivas sejam todas eliminadas. O equilíbrio vai ser difícil de encontrar se é que alguma vez o alcançaremos. A minha esperança é que a vacina seja descoberta em breve e venha resolver este conflito ainda em 2020.

Pedro Telhado Pereira