Um destino baratinho

14 Fev 2020 / 02:00 H.

Continuamos (sim, nós, porque somos nós todos que o fazemos, e escolhemos os decisores) a vender o destino ao desbarato. E continuamos a fazê-lo, na minha perspectiva, porque não conseguimos decidir o que queremos.

Sabemos que não temos espaço, nem infraestruturas, nem massa humana para gerar o volume que nos permitiria competir pelo low cost, mas continuamos a tentar, num esforço desesperado de ocupar hotéis que continuamos a construir, e que levam apenas a uma quebra dos preços ditada pela necessidade de ocupar os novos quartos.

Sabemos que os salários têm de subir – e têm subido, muito à custa do aumento do salário mínimo, mas o salário mínimo, que é que muitos profissionais do sector turismo, hotelaria e equiparados já ganham, não é conducente à qualidade. Mas toda a pressão dos empresários vai no sentido de manter os salários baixos, de esmagar os custos, por forma a manter uma competitividade assente num pressuposto errado: que é preciso competir pelo preço.

Contratamos para mostrar a nossa ilha aos que nos visitam pessoas sem a formação adequada para o fazer porque, de acordo com a lógica do mercado, exigir qualificações implicaria preços mais altos para os serviços a prestar. Logo, prestamos um mau serviço a quem nos visita agora, o que acaba por ser um mau serviço às gerações que nos seguem porque entretanto se criou a reputação de um serviço mau, ou indiferente, que não é muito melhor.

Insistimos na receita dos navios de cruzeiro quando já todos sabemos que não nos trazem nada de novo. Que são um mercado que não nos interessa – pelo menos aqueles que nos visitam mais amiúde. Isto torna-se mais grave quando há evidências que apontam para que os navios de cruzeiro que visitam os portos portugueses gerem tanta poluição quanto todos os automóveis em todas as maiores oito cidades do país.

Defendo que isto acontece na Madeira porque o nosso negócio não é turismo. O objectivo é manter o status quo, e isto passa por garantir os retornos da indústria da construção. E é por isto que continuamos a construir hotéis, e estradas em reservas naturais, e portos que são subdimensionados à partida, e desenhados para dar vantagens às empresas monopolistas da Região, e um aeroporto que não cumpre.

Meus caros, se o objectivo é melhorar o turismo e aumentar a competitividade da Região neste sector, vamos trabalhar todos juntos nesse sentido. Mas adoptando uma política clara, transparente e racional. Se o objectivo é garantir a longevidade do PSD, vou transformar-me num mercenário. Paguem-me, e eu faço. Paguem-me bem e faço bem. E faço enquanto não encontrar algo mais interessante e útil com que me ocupar.

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Roberto Loja

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