TANCOS fora nada?

E na política? As responsabilidades acabam com a exoneração do ex-titular da pasta da Defesa? É crível e admissível que este esconda do Primeiro-Ministro uma matéria tão relevante?

11 Nov 2018 / 02:00 H.

Escrever sobre o que não se sabe é difícil. E fazer acusações está assim fora de questão. Os julgamentos devem ficar para os tribunais. Quando as pessoas tendem a avaliar precipitadamente propendem a cometer injustiças que o desconhecimento dos factos proporciona muitas vezes.

Outra coisa é o veredicto político que não tem a ver com responsabilidades criminais. Ora, o comportamento dos que agem neste campo é apreciado pelos eleitores e a formulação da vontade destes resulta da perspectiva que lhes é publicamente transmitida. Através das questões e das dúvidas que vão sendo suscitadas e tornando-se conhecidas.

Este texto é feito de perguntas. Aquelas que gostaríamos de ver explicadas para formularmos um parecer justo.

O roubo

Das armas em Tancos.

Não havia vigilância ou segurança no quartel? Nem câmaras? Todos dormiam àquela hora?

Teve a colaboração de quem? Quem são os comparsas do ladrão que está preso? E qual o respectivo envolvimento no provável negócio que aconteceria depois da pilhagem?

Qual o real produto do saque? Utensílios de disparo e explosivos obsoletos como constou? Então quem furta coisas em desuso? Um bêbado que circulava nas redondezas? E quem compra material bélico antiquado? Outros, também embriagados, mas com dinheiro?

Qual o destino dos instrumentos de guerra surripiados? Terrorismo? Gangues da droga? Contrabando?

A devolução

Do armamento supostamente subtraído.

Então levam e depois voltam a entregar? Que raio de ladrões são estes? Que se arrependem e repõem o produto rapinado? Ficaram com inesperados remorsos? O negócio agendado falhou? O alarido na comunicação social e o impacto na opinião pública fez recuar os estrategas, sejam autores, cúmplices ou mandantes?

A restituição não corresponde a todo o produto roubado? Ou pior, não é o que efectivamente foi furtado? Em qualquer dos casos quem é o habilidoso mentor de todo este esquema e que objectivos tinha?

Quem é que, realmente, fez retornar à origem os referidos apetrechos de combate? Quem realizou o telefonema a anunciar o local onde estava o hipotético conjunto dos bens desaparecidos? O larápio que está preso???

Por onde anda a parte (ou o todo) que não foi recambiada? Ou foi tudo e mais uma caixinha como chegou a afirmar o então Comandante do Exército?

O encobrimento

Do assalto e da recuperação.

Quantas entidades ajudaram no ocultamento desta situação? Quem são os comprometidos? Políticos? Militares? E com que propósito?

O ex-chefe de gabinete do ex-Ministro teve conhecimento, já o sabemos. O que fez do badalado memorando? Omitiu-o do seu superior? Com que intenções o faria? Disfarçar o roubo? Encapotar a manobra de devolução? Encobrir o encobrimento? Porquê? Que interesse tinha nisso? Ou, afinal, partilhou mesmo a informação?

E, então, Azeredo Lopes? Não lhe disseram nada ou será que sim? E, se soube, desvalorizou? Um assunto desta gravidade? Acabando por mascarar a trapalhada não colaborou na dissimulação?

Comunicou ao seu colega da Administração Interna com tutela na GNR? Não???

Entretanto o CEME demitiu-se. Ou foi destituído? Neste caso porquê?

E na política? As responsabilidades acabam com a exoneração do ex-titular da pasta da Defesa? É crível e admissível que este esconda do Primeiro-Ministro uma matéria tão relevante? Não foi Costa que afirmou, por mais do que uma vez, que aquele governante lhe era de uma lealdade inquestionável? E quem é leal não dá conta dos factos importantes, e neste caso até inquietantes, ao líder do executivo de que faz parte?

O branqueamento

Em geral. Da verdade e da mentira. Da farsa, da encenação e da realidade factual.

Há uma forte probabilidade da recente remodelação ter sido politicamente urdida para ser abafadora. Poria as pessoas a falar dela e a esquecer a incomodidade latente. Apesar dessa eventual tentativa de branqueamento parece que esta malfadada história não se vai ficar por aqui. Porque é demasiado grave para ser esquecida. E é preciso preservar o bom nome e credibilidade das instituições do Estado e, particularmente, de um dos pilares do regime, as Forças Armadas.

Creio que assim será, para azar dos prevaricadores, para sorte da democracia.

Com destrinça obrigatória entre responsabilidade criminal e política. São coisas diferentes. Que devem ser tratadas de forma desigual e em palcos distintos.

João Cunha e Silva
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