Sobre (des)emprego e sobre o MAR e sobre oportunidade

08 Nov 2018 / 02:00 H.

Até 2022, um dos “gigantes mundiais” do mercado de cruzeiros necessita 22.000 profissionais para trabalhar a bordo dos seus navios. Leu bem, caro leitor, 22.000 pessoas! Se reparar, eu não escrevi marítimos. Escrevi profissionais e fi-lo de propósito, uma vez que a companhia não procura só oficiais e marinheiros. Quer contratar, sobretudo, gente para trabalhar em áreas como restauração e bar; animação e quartos; médicos, enfermeiros, cozinheiros e por aí fora.

Basta analisar o crescimento do mercado de cruzeiros e consequentemente, do número de navios a operar nos quatro cantos do mundo - navios cada vez maiores, com uma oferta cada vez maior e com necessidades cada vez maiores – para perceber as oportunidades de emprego que podem ser criadas. Alguns dados: até 2027, mais de 100 navios entrarão no mercado. Só em 2019, mais de 20 começarão a navegar.

O que temos nós a ver com isto, pergunta o leitor? Eu, modestamente, tentarei responder.

Devemos procurar aproveitar as oportunidades, nomeadamente de emprego, que esse crescimento traz. Como? percebendo que sendo o Registo Internacional de Navios da Madeira (MAR) um link direto com os armadores – mesmo que o mercado de cruzeiros não seja, por agora, o core do registo, é previsível que venha a crescer – podemos começar por formar mais gente para ir navegar. Não só oficiais e tripulantes marítimos, mas também profissionais de hotelaria.

Existem caminhos que a Madeira e o país podem aproveitar. Na Região, por exemplo, foi recentemente criada uma companhia de manning – a Marítimos Manning Portugal (MMP) – que, aproveitando o tal link que o MAR cria, propõe-se canalizar marítimos para os navios nele registados.

Há que divulgar as oportunidades de emprego junto das escolas de hotelaria e apostar na criação de cursos cursos, de poucos meses, que certifiquem jovens formados nessas escolas para irem para o mar. Uma carreira a bordo é significativamente mais bem remunerada do que uma carreira em terra e não tem de ser para a vida. A experiência ganha num navio, durante alguns anos, permitirá certamente um regresso a terra com valorização curricular incluída.

A oportunidade formativa pode ser aproveitada por entidades formadoras quer na Madeira, quer no continente, ou seja, estamos a falar da criação de um nicho de negócio que não é nada negligenciável.

Mas quando apontamos as necessidades do mercado internacional, falamos também na demanda das companhias (quer no mercado de cruzeiros, quer nos restantes) por engenheiros navais. Aqui, cria-se uma oportunidade para as instituições de ensino superior em Portugal. Porque não criar formações para recém-licenciados em engenharia mecânica, convertendo-os em engenheiros navais (estamos a falar, por exemplo, de pós-graduações), abrindo-lhes caminho para uma carreira, ou pelo menos, para um início de carreira no mar? A Escola Náutica tem um papel central, mas nada impede que outras instituições de ensino superior “entrem no jogo”. Nada impede também que essas formações sejam dadas em inglês, facilitando a integração dos jovens no mercado. Nada impede o estabelecimento de parcerias com universidades externas, aproveitando a experiência destas.

O mar e o MAR são, hoje, um território que potencia infindáveis caminhos e por isso, é importante que quer a Região, quer o país, não deixem o trabalho pela metade. É importante ver a bandeira crescer, mas mais importante ainda é aproveitar aquilo que o crescimento traz e isso define-se numa palavra: Oportunidade. Já reparou, caro leito, quantas vezes repeti esse vocábulo neste texto? Bem, posso dizer-lhe que foi de propósito.

Gonçalo Santos
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