Quem é afinal o macaco?

As pessoas usam de tudo e mais um pouco para ofender, denegrir e achincalhar os outros. Então no futebol é uma desgraça

20 Fev 2020 / 02:00 H.

Vamos por estes dias assistindo a um desfilar de opiniões sobre aquilo que se passou no domingo passado em Guimarães. Para quem não sabe (o que é altamente improvável dada a repercussão que teve nos meios de comunicação social), o jogador Marega foi alvo de insultos racistas, com um grupo numeroso de adeptos a imitar os sons de um macaco de cada vez que o jogador tocava na bola. Não é novidade. Infelizmente um pouco por todo o Mundo vamos assistindo a episódios lamentáveis como este que, de quando em vez, têm maior exposição, porque um jogador lá se lembra de não pactuar com tais gestos e se sente de tal forma ofendido que decide abandonar o terreno de jogo, provocando assim o falatório normal e exponenciando o resultado de tal atitude.

Por partes. Não considero que este seja um problema confinado ao futebol. O que este desporto tão apaixonante tem de diferente é que desperta de tal forma emoções que as pessoas acabam por se revelar, e quando se revelam e mostram à sociedade aquilo de que realmente são feitas vêm ao de cima os defeitos que no dia a dia habilmente conseguem disfarçar sob a capa da hipocrisia que teima em reinar abundantemente na nossa sociedade. Às vezes lá deixam escapar um impropério racista mas logo logo, esboçam um sorriso e dizem que estavam a brincar, que evidentemente não são racistas. Eu considero que este tema acoplado a um conjunto de atitudes a que assistimos permitem-nos chegar a uma série de conclusões que devemos apreender para rapidamente se tomarem medidas que já deveriam ter sido tomadas há muito. Não é admissível vivermos situações como estas nos nossos dias. Mais do que isso, devia encher-nos de nojo e vergonha.

Começa por ser um problema de civismo.As pessoas usam de tudo e mais um pouco para ofender denegrir e achincalhar os outros. Então no futebol é uma desgraça. São todos os nomes e mais alguns que visam os jogadores da equipa adversária e sobretudo os árbitros. Onde se notar alguma fragilidade ou susceptibilidade é lá mesmo que eles vão. É por isso que tocam em cantigas racistas e é também por isso que não se conhecem casos em que os jogadores assumem a sua homossexualidade antes de se reformarem. Porque isso seria um manjar dos Deuses para as bestas que pululam nas nossas bancadas. Não mais teriam descanso. Esta vontade de ir ao ponto mais sensível de tocar e rodar o dedo na ferida é de uma falta de educação , de princípios e de valores. Mas quanto a isso não temos grandes novidades. Basta ver a forma como descendentes de chineses que nunca sequer foram à China são chamados de Coronas ou Corona Vírus em tom de gozo. É a fragilidade humana a dar de caras com a podridão.

Mas é também um problema de racismo sim. Porque continuo a ver e ouvir por aí muitas frases camufladas e porque muita gente não se acha racista e foge do selo como diabo da cruz. Continuam a existir pessoas que os tratam de “pretinhos” como se fosse carinhoso, que acham que eles são mais limitados e por isso têm pena, que sentem medo quando passam por algum na rua (por achar que se é negro é criminoso) e que continuam a ter pequenas atitudes diárias que inconscientemente revelam esse mesmo estado. Que não têm nada contra mas preferiam que o seu filho casasse com uma branca. Tudo isto são demonstrações racistas que abrem pequenos focos de normalidade no que há muito deveria ter sido extinguido.

É importante também, no meu entender que as pessoas de raça negra ou qualquer outra tenham para si o seu devido valor e não se deixem rebaixar ou humilhar perante tamanha estupidez. É fundamental educar para a igualdade mas também para a cidadania em que deixamos de uma vez por todas de usar esse tipo de expressões mas acima de tudo deixamos de ter no nosso consciente a normalidade de algumas coisas que dizemos ou pensamos. Até porque do macaco viemos todos, brancos, amarelos, negros, mestiços. Todos. É por isso para além de tudo o que já disse uma tremenda ridicularização da própria pessoa que usa este tipo de insultos. No fundo quem diz é quem é. Está na altura de actuarmos de forma contundente contra esta e todas as outras formas seja de racismo (que tanto pode ser de branco para negro , como de negro para amarelo ou mestiço ou outro qualquer) como de insulto gratuito e de deixarmos que o inqualificável se torne banal de tão banal que é. Sempre que tenho que voltar a este assunto dou-me conta do quão atrasados ainda estamos.

José Paulo do Carmo