Quase invisíveis

Divago sempre quando aqui venho como agora, que estou para a conferência de imprensa do treinador do Marítimo numa sala cheia de câmaras e tripés e caras de quem não faz ideia de como é bom ter um escudo para comprar alfarrobas para comer no caminho para casa.

11 Ago 2019 / 02:00 H.

Voltei ao campo do Marítimo, mas nada se parece com o pelado em terra para onde fugíamos no intervalo da escola. Penso sempre nisto, nestas construções, nestes campos de futebol que se juntam aos prédios de habitação social, pré-fabricados, às casas bonitas e às outras desengonçadas, tão comuns por aqui e são parte da paisagem das zonas altas.

Eu cresci por aqui, umas duas curvas à frente na estrada que dantes tinha o nome de circunvalação. A minha escola ainda está de pé. Não tem portão, nem muros, mas já não tinha quando entrei para a primeira classe. E nós corríamos livres pelas redondezas, íamos à venda comprar rebuçados e borrachas das que davam para apagar esferográfica e fazer buracos no caderno.

Divago sempre quando aqui venho como agora, que estou para a conferência de imprensa do treinador do Marítimo numa sala cheia de câmaras e tripés e caras de quem não faz ideia de como é bom ter um escudo para comprar alfarrobas para comer no caminho para casa. E divago ainda mais quando me sinto fora do lugar como estar aqui para o prognóstico do jogo. Parece simples, mas o discurso da bola tem muito que se diga.

Há a parte da estatística, aquelas contas que dizem qual a equipa em vantagem nos resultados dos últimos cinco anos, depois há táctica naquela complicação do 4x4x2 e o 4x3x3 e as opções do treinador a ver de se mete um ponta de lança de raiz ou se escolhe um médio que ajuda a defesa e lança o jogo para a frente. Eu tento seguir o assunto para não me perder, é mais ou menos como nas aulas de Matemática, não era fácil seguir a lógica do x, da raiz quadrada e dos números elevados ao cubo.

Não ajuda ser mulher, sinto-me desenquadrada. As raparigas do meu tempo não percebiam de bola, nem queriam perceber e os jogadores de futebol não tinham o aspecto de agora. Eram uns senhores de bigodes fartos e barbas com fama de estouvados. Tento concentrar-me, nem me atrevo a perguntas. Ficava de caras que não entendo grande coisas de médios ofensivos, de centrais e pontas-de-lança, mas interrogo-me muitas vezes sobre o que passará pela cabeça dos que escolhem ser guarda-redes.

Não era para mim ficar desamparada na baliza, de frente para os golos, a arriscar vaias por todos os “frangos” que me fugissem das mãos, mas estou a divagar outra vez. O ‘mister’ fala do erro do adversário, do entrar a ganhar em casa e eu respiro de alívio quando se levanta. Antes de arrumar as tralhas, vejo a equipa feminina a treinar. Também elas jogam na primeira divisão e são quase invisíveis.

E isso torna tudo ainda mais bonito, aquelas miúdas são o contrário das raparigas do meu tempo. Gostam, apreciam futubol, jogam e jogam por ser bom jogar, mesmo que todos os golos que possam marcar se percam no esquecimento. Não sei que caminho de terão fazer, sei apenas que são de uma geração descontraída, que gosta sem complexos.

Marta Caires

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