Paradoxo Ambientalista

12 Jul 2019 / 02:00 H.

Não sou um desses neo-ecologistas militantes numa determinada formação política, não estou filiado a nenhuma ONG que atue nessa frente, não crio nem assino petições online e não faço post’s com frases de ordem ambientalistas nas redes sociais. Sou uma daquelas pessoas mais comuns, mais substanciais e mais honestas que tentam tomar as melhores opções quando escolhem os produtos que vão consumir, que sempre se esforçam por fazer a separação do lixo e que têm plena consciência de como as suas opções de consumo podem impactar o planeta.

Apesar dos aspetos relacionados com o ambiente se situarem entre as principais preocupações nas sociedades desenvolvidas, e do facto de no último ano se terem multiplicado os protestos e as imagens da evidente contaminação do nosso planeta nas redes sociais, a resistência à adoção de comportamentos mais amigos do ambiente continua a ser muito grande. Continuamos a ver pessoas a pedir uma Coca-cola com duas palhinhas (cada uma delas individualizada na sua embalagem plástica), continuamos a ver muitas beatas e embalagens plásticas espalhadas pelas praias mesmo a poucos metros de um balde do lixo, continuamos a ver lixo despejado nas serras, e muitos outros comportamentos que evidenciam a falta de vontade das populações em fazer o mais pequeno dos esforços para contribuir, à sua medida, contra as alterações climáticas.

O paradoxo social é evidente, as pessoas estão muito preocupadas com estas questões, mas só começam a mudar os seus hábitos e os seus comportamentos após serem brindados ou penalizados com algum subsídio ou taxa. Exemplo disso foi o boom nos painéis fotovoltaicos que só tiveram uma grande expansão enquanto beneficiaram de fortes apoios governamentais, e também a redução nos sacos de plástico, no sentido inverso, que sofreram uma redução significativa após começarem a ser cobrados.

É engraçado ver um noticiário a abrir com a noticia dos coletes amarelos a se manifestarem contra a subida do imposto ao petróleo (França pretendia equiparar a fiscalidade entre a gasolina e o diesel) e mais à frente uma noticia da manifestação “Extinction Rebellion” em Londres onde chamavam à atenção para os efeitos preocupantes das atuais alterações climáticas.

Penso que todos nós temos de dar um contributo e que todos os contributos são importantes, mas a verdadeira mudança terá de começar mais a montante. As empresas têm de ser pressionadas a seguir políticas que cumpram critérios ecológicos ou que visem a redução das emissões de carbono com efeitos fiscais positivos a favorecer o “verde”. Também ao nível do sector financeiro, terá de haver uma revisão dos requisitos prudenciais para premiar o financiamento de atividades “verdes” e penalizar a exposição a atividades que tenham um impacto ambiental negativo, fomentando assim o investimento a empresas mais amigas do ambiente. A Comissão Europeia parece já estar a avançar nesse sentido, porque já pediu à EBA (European Banking Authority) para que nos próximos 6 anos apresente um relatório no qual avaliará a conveniência da modificação dos requisitos prudenciais com impacto nestas matérias.

Já sabemos que o “laissez-faire” não funciona. Todos nós teremos de dar um contributo, mas cabe aos governos e a outras organizações, o papel de liderança, coordenação e acima de tudo de exemplo, dando às pessoas e às empresas, os incentivos para avançar para uma gestão mais sustentável dos recursos.

Luís Pedro Branco