Pandemias: o que diz a História (1)

29 Mar 2020 / 02:00 H.

A ignorância (em sentido literal) e o incumprimento das directrizes emanadas das autoridades competentes (científicas, legislativas ou outras), foram sempre os dois mais fortes aliados das pandemias. A incapacidade de aceitar ou garantir o isolamento e a crónica falta de cuidados higiénicos não ajudaram. Ao impedir a contenção, a arrogante correlação fez o resto.

Daí a necessidade de vigor e firmeza, mas também de bom senso, compreensão e lucidez. Coisas que o tempo pode atenuar. Porque se primeiro é necessário suster, depois será necessário ter condições para reformar. Outro dado histórico: com tais pandemias, não só muita coisa muda - por vontade humana ou não – como também se concluiu que (inevitavelmente) muita coisa tem de mudar.

As “pestilências” - designação comum, até ao séc. XVIII, para apontar entidades infeciosas diversas - sempre provocaram entropias. Na saúde pública, na sociedade e no Estado. Em Portugal – e ainda mais na Madeira – são escassos os estudos históricos e epidemiológicos sobre as pandemias que nos atingiram. Desde a famosa Peste dita Negra (séc. XIV), que provocou a morte a 1/3 dos europeus (uma das vagas chegou à Madeira no início do séc. XVI), até à gripe pneumónica (dita espanhola, 1918), que atingiu 100 milhões em todo o mundo. Foram as maiores pandemias no mundo moderno, ambas oriundas do meio asiático, quando estavam longe os receios de guerras biológicas.

A pneumónica será, aliás, a excepção no que diz respeito ao conhecimento mais aprofundado, funcionando como um caso paradigmático na análise da realidade portuguesa, a respeito das repercussões na saúde pública e das (re)acções dos poderes institucional e político.

O que nos mostram - com a cólera (1856 e 1910) e a bubónica (1899-1905) - as principais pandemias da era da globalização? Um panorama terrível, uma saúde pública precária, apesar de caldeada por heroicos voluntarismos, única forma de ultrapassar a silenciada falta de recursos (humanos, materiais e científicos). Uma fatal impreparação social (cultural) sobre como lidar com o problema. Uma dificuldade imensa em aferir e controlar o (verdadeiro) impacto, em particular depois de chegar às zonas rurais. Enfim, a constante inexistência de meios quando a ameaça se torna exponencial e leva ao colapso do sistema. De todos os sistemas, diga-se.

Foi sempre assim. Talvez não pudesse ser de outro modo, tal a natureza das ameaças pandémicas, que só um empenho colectivo pode travar. Mas sendo certo que hoje estamos melhor preparados - mas os germes também - persistimos em equívocos, desde a comunicação (que é uma ciência) até às medidas legislativas (insuficientes ou irrealistas).

A História diz-nos que poderão chegar outras vagas. De uma, indirecta, não escaparemos: a das consequências políticas. Existiram sempre e se agora se impõe manter o foco no cerne do problema, resolvido este, será avisado ter plena consciência dos outros que virão. Conheça-se o passado e talvez se evitem opões desastrosas (e algumas já se adivinham). Mas isto já é outra História.

Paulo Miguel Rodrigues