Orgulhosamente sós

07 Out 2019 / 02:00 H.

Da noite eleitoral sobra uma fatalidade inesperada: quem venceu as eleições na Madeira, com quase mais cinco mil votos do que o principal opositor, esbanjou uma oportunidade soberana para ter uma postura de Estado exemplar. Até porque é com o PS do odiado António Costa e seus eventuais aliados que a Região terá de dialogar e entender-se. “Quer queira, quer não”, parafraseando Miguel Albuquerque que ontem, estranhamente, voltou a exibir a inusitada tese e tiques de tempos de má memória, que julgávamos definitivamente enterrados.

Ao manifestar não estar disponível para encetar ou dar continuidade “a um diálogo de surdos, onde aquelas que são as reivindicações que são legítimas do nosso Povo e dos nossos cidadãos têm sido sempre relegadas para plano secundário” assumiu que, contrariando a tendência nacional, prefere estar orgulhosamente só do que determinado em construir pontes que nos tirem do ostracismo e nos aproximem dos centros de decisão.

O PSD tem um histórico rico a esse nível, graças a esforçados negociadores que deram mais mundo à Região e oportunidades de afirmação. Por isso, é inadmissível que, qual disco riscado, opte por um contencioso desnecessário e por uma autonomia de mão estendida, em vez de dar sinais de querer uma relação profícua com a República. Até era fácil e oportuno dar contributos para fortalecer a unidade nacional, pois à conta do isolamento premeditado e contradições circunstanciais ficamos a ver navios e aviões.

A teimosia persiste, mesmo que toda a gente já tenha percebido que o futuro colectivo das ilhas não se faz com birras nem com murros na mesa. A maior submissão é ter que pagar e ouvir pelo descrédito acumulado. E ontem não houve avanços nesse domínio. Albuquerque só falou em direitos dos madeirenses, que por sinal estão consagrados na Constituição. E deveres? Não se ouviu nem um.

Perguntem aos talentos que nos “enobrecem” se conseguiram notoriedade e respeito por esse mundo além por via do conflito permanente e esperteza provinciana. Haja por isso humildade porque sobranceria temos que chegue para ocupar as centrais de processamento de bananas.

Miguel Albuquerque tem toda a legitimidade para não se vergar e não baixar a voz. Ganhou por 3-0 no campeonato regional. Ergueu a taça e pronto. Esqueceu-se contudo que ontem, na Madeira, o PSD obteve tantos lugares na República como o PS. E que em mandatos houve empate, deputados que uma vez eleitos são da Nação. E assim se poupam algumas figuras tristes.

Miguel Albuquerque é líder de um partido que conquistou há 15 dias mais de 56 mil votos, mas que ontem, como cabeça-de-lista, valeu apenas mais mil votos do que Sara Madruga da Costa, a n.º 1 em 2015. O presidente do PSD vale menos 8 mil votos para a República do que para a Região. Este eleitorado é severo, mesmo que metade continue a não ir às urnas. A prova é que penalizou o CDS, órfão de Assunção Cristas que, como todos se lembram, há 15 dias, decretou a aliança democrática na Região. Neste espaço de tempo, entretidos com negociações e chantagens, os centristas perderam eleitorado, mas nem deram por isso.

Ricardo Miguel Oliveira