O voto útil e a inutilidade de uma opinião

É óbvio que há votos que não elegem ninguém. É isso um mal? Não, porque a intenção do eleitor que assim votou, é a mesma daquele cujo voto elegeu alguém: fazer-se ouvir e ser representado.

29 Jul 2019 / 02:00 H.

1. Livro: gosto da escrita do Moita Flores. “O Carteirista Que Fugiu a Tempo”, foi a minha última leitura do autor. Uma descrição de um país cansado, de maldizentes pouco interventivos, de vida acomodada. Um país que trocou a “descoberta” pelo sofá da sala, um país ordeiro, servil, medroso e merdoso. Um país entre uma telenovela e um jogo de futebol. Lembra-vos alguma coisa?

2. Disco: Adoro Flaming Lips. “King’s Mouth” é o seu 15.º trabalho. Não é o melhor e está longe de ser o pior, porque disso eles não são capazes. Este trabalho é para ser ouvido com atenção, pois criado num limbo cheio de psicadelismo e de segundas intenções.

3. Lê-se por aí o que quem defende o fim da maioria absoluta do PSD escreve sobre a utilidade do voto. Há deles que defendem que esse voto deve ser concentrado nos “outros”, demonstrando que têm da política uma visão maniqueísta. “Les uns et les outres”. Os motivos que levam alguém a votar num determinado sentido são muitos e variados e todos eles democráticos. Uns votam por convicção, outros por utilidade, outros por mal menor, há quem no boletim de voto trace uma cruz ou escreva um texto e há quem o dobre sem lhe fazer nada. Fazem-no de acordo com a sua consciência e, tudo isso, tem o mesmo valor.

Eu não gosto de maiorias absolutas. Tenho da política a ideia de que esta deve ser a arte do compromisso, do saber negociar. Ceder aqui, para ganhar ali. E gosto ainda menos de ver pessoas defenderem que o ideal seria trocar uma maioria absoluta por outra. As maiorias absolutas têm a tendência para distorcerem a democracia. O próprio termo arrepia-me, pois dá a ideia de que alguém recebeu um mandato para governar absolutamente. Uma espécie de “l’état c’est moi”, mas agora sufragado.

É óbvio que há votos que não elegem ninguém. É isso um mal? Não, porque a intenção do eleitor que assim votou, é a mesma daquele cujo voto elegeu alguém: fazer-se ouvir e ser representado.

Uma questão: e o que dizer das sobras? Aqueles votos que os “grandes” têm e não elegem nada? Os que ficam no fim? São, também eles, desperdício? Votos deitados fora?

Já agora, mais uma: e votar em quem? Têm os defensores desta teoria macarrónica a presunção de que sabem quem são os mais votados (lembrar o resultado do PS, coligado, nas eleições de 2015)? Sondagens que ora são boas, se a nosso favor, ora “a grande sondagem é o dia das eleições” se forem más?

Andam aí umas mentalidades pequenininhas que mais parecem ter da política a ideia do aproveitamento pessoal, de servirem os seus interesse e as suas vingançazinhas. Saltitam daqui para ali, com uma enorme facilidade, e não conseguem entender a força das ideias, a defesa do acreditar, o estruturar um pensamento. De nenúfar em nenúfar, lá trocam este por aquele, perpetuando-se no poder.

Defender a concentração dos votos puxando a brasa à sardinha que nos dá jeito é, por isso, pouco democrático.

Tenham a certeza de uma coisa: não há votos inúteis, mas há opiniões que o são!

4. Foi notícia na semana passada que o SESARAM realizou seis transplantes de córnea. Estranha terra esta onde é notícia fazer o que compete.

5. Há um ano Emanuel Câmara, numa entrevista, fez um desafio: “Pena é que alguns de forma covarde só se manifestem nas redes sociais e não sejam homenzinhos de dizer as coisas na cara”. Pela parte que me tocava pedi-lhe, nessa altura, que marcasse o local e a hora. Até sugeri que as armas fossem ideias e ideais...

Continuo à espera.

6. Qual é coisa, qual é ela?

É propriedade de uma Sociedade de Desenvolvimento... Concessionada a um privado, para um determinado fim... onde este justificou uma renda miserável com um investimento avultado...

Que viu um projecto dar entrada nas entidades competentes para a transformar em dormitório... para funcionários.

Qual é a coisa, qual é ela?

7. Eu não percebo nada de museus. Limito-me a ser fruidor. Logo não pretendo trocar argumentos com ninguém sobre a mais-valia da construção deste ou daquele museu. Mas não posso deixar de aplaudir a decisão de recuperar o edifício que é nosso e que está deixado, há demasiado tempo, ao abandono. A Quinta do Monte é uma “quinta madeirense” que tem que ser recuperada. Foi ali que viveu Carlos da Áustria, o Imperador Santo, beatificado por João Paulo II, em 2004.

Se na Quinta do Imperador vai nascer um Museu do Romantismo, não é coisa que me preocupe. Já ouvi destas mesmas bocas, anúncios estapafúrdios de Museus do Holocausto ou de Art Déco para o Matadouro. Que ali continua, desprezado e enjeitado.

8. Tolentino Mendonça vai presidir às Comemorações do dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, do próximo ano, no Funchal. A escolha certa de um dos nossos maiores.

9. Reconheço que há vezes em que sou meio burro. Sou burro porque me desgasto em conversas, sem fim, com idiotas — talvez em mim more uma secreta esperança de convertê-los; sou burro porque há vezes em que me deixo ir abaixo por minhoquices sem importância nenhuma; sou burro porque abraço projectos de outros, em detrimento dos meus, onde não ganho nada; sou burro porque só agora percebi o novo uso da @.

A @ foi promovida, por algumas pessoas, a letra do alfabeto. Não sei bem onde mora, na ordem sequencial, mas calculo que seja lá para o fundo à direita, algures entre o w, x, y ou z.

Assim de repente a @ passou a valer por dois. Usa-se com valor acrescentado, pois é “o” e “a” ao mesmo tempo.

Fica então resolvido, para alguns, o problema da inclusão na escrita.

Eu, que não sou nada dado a modismos, sou dos que pensam que ser inclusivo não é uma questão de linguagem, nem que esta despromova a igualdade.

A inclusão tem é de ser praticada.

Não gosto que me “agridam” com as questões de género. Sei das dificuldades que muitos passam para que possam viver como quiserem e entenderem. Sei que é preciso lutar por direitos inclusivos que promovam a equidade. Sei disso tudo e tento praticar no meu dia-a-dia a inclusão, naquilo que me está ao alcance.

Não acho é que o estarmos a perder tempo com @ e afins traga qualquer resultado ou que mude seja lá o que for. É de atitudes, de educação, de mudança de mentalidades que precisamos.

10. Não combater os populismos que aí andam, sob a desculpa de que são necessários para contrabalançar os extremismos, é o mesmo que querer tirar um elefante de uma loja de porcelana pela janela, para deixar entrar um mastodonte pela porta.

Ide, ide ler qualquer história europeia do século XX, dando especial atenção aos anos 20 e 30.

11. Muito francamente, a sondagem do DN não traz nada de novo. Os que nada fazem descem pouco e os que só dão tiros nos pés descem muito. Estranho que se contabilizem os brancos e nulos como votos válidos pois, como toda a gente sabe, são votos que não contam “nas contas”. Logo, ali nos pequeninos, pode haver algum que tenha passado a barreira dos 1% e esteja à beira de poder eleger um deputado.

12. “O orçamento nacional deve ser equilibrado. As dívidas devem ser reduzidas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos, se a nação não quiser ir à falência. As pessoas devem, novamente, aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública.” – Cícero, 106 AC – 43 AC

Nuno Morna

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