O Funchal também tem um “prédio Coutinho”

A sua esbelta torre de 11 pisos implanta-se, com invulgar destreza, num quarteirão em pendente

09 Jul 2019 / 02:00 H.

Tempos houve em que, como aconteceu em Viana do Castelo, toda a capital de província sonhava ter o seu “prédio Coutinho”: um prédio alto (quanto mais alto melhor) símbolo de progresso e modernidade. Ecos do chamado Estilo Internacional que, no pós guerra, assinalava com as suas altas torres a pujança das metrópoles americanas, muitas delas desenhadas por proeminentes arquitectos: Le Corbusier (a sede das Nações Unidas em Nova Iorque); Lúcio Costa e Niemeyer, entre outros (o Ministério da Educação do Rio de Janeiro); Mies van der Rohe (as torres de Lake Shore Drive, em Chicago). Com a mesma inspiração, cidades como a Covilhã, Viseu, Ponta Delgada, Póvoa de Varzim e o próprio Funchal, viram nascer, nas já longínquas décadas de 60 e 70 do século passado, os seus “prédios Coutinhos”, todos eles assinados por arquitectos.

Cada cidade teve o “coutinho” que lhe coube em sorte. Na Covilhã, a Torre de Santo António, com 18 pisos, saiu da pena do arquitecto Fernando Pinto de Sousa, pai do engenheiro José Sócrates, que depois de alindar a Beira Baixa com as suas moradias, veio anunciar, já na qualidade de 1º ministro, que o “coutinho” de Viana era um “erro urbanístico”. Anos mais tarde, como se sabe, o prolífico engenheiro daria entrada no Estabelecimento Prisonal de Évora, desenhado por Luís Amoroso Lopes, autor do “coutinho” de Viseu. Ironias do destino. Em 1973, Coutinho Carvalho assinava o ante-projecto do “coutinho” de Ponta Delgada, com 21 pisos. Nesse mesmo ano, a Póvoa de Varzim, terra que me viu nascer, veria nascer outro prodígio: o Edifício Nova-Póvoa, uma torre com 30 pisos, a mais alta do país, desenhada por Carlos Garcia.

Ao Funchal, pioneiro nesta saga, saiu-lhe na rifa o mais qualificado de todos os “coutinhos”, concebido na primeira metade dos anos 60 por Chorão Ramalho. A sua esbelta torre de 11 pisos implanta-se, com invulgar destreza, num quarteirão em pendente, serenamente rematado pelo edifício sede da Segurança Social. Até hoje, não passou pela cabeça de ninguém querer deitá-la abaixo, como aconteceu em Viana do Castelo. Se me perguntassem, todavia, se semelhante torre seria hoje autorizada no centro do Funchal, a resposta, obviamente, seria não. É compreensível: vivemos noutro tempo, com valores muito diferentes dos que tinham os homens que, há meio século, a construíram.

Não julguemos, pois, com os olhos de hoje, os sonhos e os pesadelos destes homens. Sobretudo não os insultemos, como fez o Sr. Presidente da Ordem dos Arquitectos ao apodar o “prédio Coutinho” de Viana do Castelo, de “aberração completa sem qualidade arquitetónica”, esquecendo, talvez, que o seu autor, o arquitecto Eduardo Coimbra de Brito, pertenceu ao Concelho Directivo Nacional da Associação dos Arquitectos e que, do seu currículo, para além do “prédio Coutinho”, constam obras de inquestionável qualidade, como o restauro do Forte de São Francisco de Chaves (com Pedro Jalles Ferreira) e da Pousada de São Bento da Caniçada (com Januário Godinho). Pensemos, isso sim, no restauro do “prédio Coutinho”, indiscutível testemunho de uma época em que progresso e modernidade significavam construir em altura.

Rui Campos Matos
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