Nunca tão poucos deveram tanto a tantos!

Mas estamos em época de conflito instalado por um vírus letal, conta o qual não são conhecidos antídotos nem prevenção imunitária

23 Mai 2020 / 02:00 H.

No fim da Batalha de Inglaterra, Winston Churchill proferiu um discurso, empolgante para as suas gentes, no qual disse uma frase que se tornou célebre. Resumia o esforço dos aviadores da Royal Air Force que perante o poderio alemão deram um resposta de coragem e determinação, impedindo que o exército alemão criasse condições para uma futura invasão da Grã-Bretanha:

“Nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.”

Estamos bem longe desse dia 20 de Agosto de 1940.

Os tantos eram toda a população do Reino Unido e os poucos eram os militares da RAF. Cerca de três mil aviadores deram um exemplo do que pode a vontade humana quando chamada a desafios de difícil superação. Os alemães não contavam com tamanha resistência e abandonaram os planos para invasão das Ilhas Britânicas.

Não estamos em época de conflito entre humanos (?), mas estamos em época de conflito instalado por um vírus letal, conta o qual não são conhecidos antídotos nem prevenção imunitária, leia-se vacina.

É um conflito que confinou o mundo, que isolou populações inteiras, que fez, e faz temer pela saúde comunitária, que se apresenta com uma taxa de letalidade a rondar os 6%, e que para combatê-lo só pode contar com a abnegação de todos os profissionais de saúde que, um pouco por todo o mundo, deram mais de si do que é muitas vezes pedido a um ser humano. E deram voluntariamente, sem pedirem reconhecimento heroico, mas sim o reconhecimento das suas posições, tantas e tantas vezes ignoradas por parte que quem tem o poder de decidir sem perguntar (e sem ter, alguma vez, tido contacto directo com um seu semelhante em fase de doença).

Para poderem praticar o seu ofício com o voluntarismo que lhes foi reconhecido, também um pouco (muito!) por todo o mundo, tiveram de ter o apoio de muitos, dos muitos que seguindo as normas de confinamento, de quarentena, de isolamento, deixaram pouco caminho livre para que a contaminação se desenfreasse mais do que tem acontecido.

Tiveram o apoio de todos os que continuaram, também abnegadamente, a trabalhar para que nada faltasse, nem aos tantos nem aos poucos, os padeiros, os agricultores, os agentes da autoridade, os trabalhadores que continuaram produzindo, transportando, cuidando, fazendo jus à falta que fazem numa cadeia de necessidades, demonstrando o quanto são fundamentais em épocas em que o supérfluo deixa de fazer sentido, fazendo sentir quão díspar é a relação entre o ser e o parecer e demonstrando que o cientista mal pago vale mais do que o futebolista que ganha milhões, ou que o político que pouco produz vale bem menos do que um médico, ou um enfermeiro, ou outro técnico de saúde, ou um auxiliar, ou um bombeiro, em tempo de pandemia.

Com cerca de 80 anos de diferença entre si, em conflitos de cariz completamente diferente, numa guerra que a humanidade não vai ganhar mas vai ultrapassar, houve tantos que deram de si para que tão poucos pudessem cuidar dos tantos que lhes foram chegando a cuidados.

Eram poucos, muito poucos tantas vezes, os que correndo o risco de se infectarem trabalharam com afinco, prescindindo de poderem ir a casa ver e estar com a Família, por precaução.

Para evitar uma propagação sem razão!

Durante semanas a fio, sentindo o cansaço que a exigência do controlo da pandemia exigia, quase até ao limite do que pode a força humana.

Deveram (devem) tanto a tantos, mas bem menos do que tantos devem a tão poucos!

Apesar de as circunstâncias serem de cariz totalmente diferente, nunca a frase de Winston Churchill foi tão actual:

“Nunca, no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.”

Neste conflito entre forças tão díspares da natureza, em que um ser microscópico põe em alerta toda a humanidade, no final, bem no fim, se ou quando o houver, temos, todos, o dever de sentir bem presente na nossa memória, individual e colectiva, o resumo da frase de um grande Homem que deixou também a sua marca na nossa terra:

“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos!”

Pedro Melvill Araújo