(Mais que) alterações climáticas

06 Dez 2018 / 02:00 H.

O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), publicado no passado mês de Outubro, reforça as evidências relativas à contribuição da espécie humana no que diz respeito às alterações climáticas. Essa contribuição assume múltiplas facetas, identificando a sua origem principal, associada ao desenvolvimento industrial, e, mais importante, clarificando os cenários, impactos e propostas relativas à mitigação e adaptação.

Paulatinamente as sociedades vão tendo oportunidade de constatar a fiabilidade dos modelos, interpretativos do passado e de previsão de cenários futuros, pois, o tempo, tem permitido a sua avaliação e, infelizmente, validação. É, por isso, e também por ser mais fácil aceitar as responsabilidades do passado, consensual o reconhecimento do papel do desenvolvimento industrial no processo de alterações climáticas quer ao nível das mudanças dos padrões globais, nos padrões, frequências e localizações dos eventos extremos ou da velocidade da própria mudança. Tudo culpa de um passado e de um desconhecimento igualmente global.

O futuro imediato é então a preocupação urgente, de maior complexidade e dificuldade de percepção e, consequentemente, de grande dificuldade ao nível da implementação. A consciência da necessidade de medidas urgentes, mas de resultados apenas visíveis a médio e longo prazo, torna o processo ainda mais complexo e contraditório. Basta ver as notícias de revoltas violentas contra medidas desenhadas numa lógica de transição ecológica ou a dificuldade de implementação de uma fiscalidade que tenha em consideração a vertente da sustentabilidade energética ou ambiental. São sinais de que há muito mais por fazer do que conhecer e entender as alterações climáticas, os seus impactos, as necessidades de adaptação e as medidas urgentes de mitigação. A comunicação está longe de ser entendida com a clareza e capacidade mobilizadora necessárias, mas, mesmo assim, não é o elemento central e decisivo para a mudança. É fundamental entender as implicações das acções e medidas e enquadrá-las num novo modelo de governança, uma nova orgânica capaz de reflectir e responder às realidades de um tempo que se caracteriza por uma dinâmica de transição e incerteza absolutamente incompatíveis com as estruturas e visões ultrapassadas e incapazes de se ajustar. Este é o maior desafio das alterações climáticas e que não tem vindo a ser considerado no quadro das medidas de adaptação. Alguns passos têm vindo a ser equacionados com sinais de alguma vontade de mudança, visíveis nas estratégias nacionais ou locais, mas, sem qualquer implicação estrutural capaz de acomodar os desafios entretanto identificados. Medidas avulso não acompanhadas por mudanças objectivas, discutidas, participadas e melhor comunicadas levarão sempre ao mesmo resultado: a contestação imediata, o retrocesso ou o adiar de decisões importantes para a necessária transição. Muitas vezes a história da humanidade teve ideias e políticas à frente do conhecimento disponível. Hoje, o conhecimento disponível sugere a necessidade de uma nova política e modelo de organização. Esta é a verdadeira alteração, mais do que climática.

António Domingos Abreu
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