Livres para pensar

Por estes dias, o clima pré e pós eleitoral fez abundar egos, soberba e arrogância na praça

11 Out 2019 / 02:00 H.

Uma colega tinha-nos sugerido o nome daquele jovem padre e garantiu-nos que os alunos iriam gostar de ouvir. E o convite foi feito e aceite. O que queríamos era alguém de fora da escola, que falasse de Liberdade, um dos temas organizadores dos conteúdos socioculturais do programa de Inglês na altura e assim diversificar os interlocutores em sala de aula, trazendo outras vozes portadoras de sentido. Até porque éramos uma das escolas experimentadoras do programa, o que de acordo com os objetivos ministeriais nos dava alguma margem, mas muita angústia, em termos de planificação.

Sendo natural da mesma localidade da população escolar, os alunos aguardavam a sua intervenção com curiosidade. O enquadramento fez-se com leitura de poesia e com canções sobre a temática em discussão. E quando chegou a sua vez de intervir ele contou, na sua voz pausada e serena, a uma sala cheia de jovens, de como associava a Liberdade aos trágicos episódios ocorridos poucos anos antes - estávamos no início dos anos 90 - naquele dia 4 de junho de 1989, na Praça de Tiananmen, em Pequim.

Segundo as suas palavras, encontrava-se em viagem de comboio, e por esses dias, a sua maior preocupação era a preparação para um exame, que iria ocorrer pouco tempo depois. Mas ao ouvir a notícia e ao ver as imagens do avanço dos tanques sobre os jovens estudantes chineses que se manifestavam na praça por maior liberdade política, ficou naturalmente incomodado. Com toda a simplicidade, confessou ter sentido mesmo vergonha de si mesmo, por estar apenas preocupado com os seus assuntos pessoais, enquanto naquele canto distante do mundo, outros jovens como ele sacrificavam a sua vida, o seu futuro académico, pessoal, familiar, em nome de uma causa superior: a luta pela pluralidade democrática e pela Liberdade.

Após um momento de silêncio, os aplausos romperam e os olhos dos alunos brilharam de entusiasmo. Não tivemos dúvidas do sucesso desta magistral aula de cidadania. Uma soberba lição de humildade, qualidade essencial ao desenvolvimento global dos valores de generosidade, compromisso e tolerância, bem como ao crescimento como ser humano. Surpreendeu a sinceridade com que não teve medo de partilhar o que é tão raro no cidadão comum: a capacidade de assunção dos próprios erros, em vez de culpar os outros. Anos mais tarde, um dos alunos ainda se lembrava: “Professora, aquela aula com o Padre Tolentino Mendonça! Lembra-se?” Como esquecer?

Consta que à hora em que o Papa indicava o nome de D. José Tolentino Mendonça para Cardeal do Vaticano, este estaria a celebrar missa, e o Evangelho era o texto de S. Lucas (14,1.7-11), cuja lição de humildade se resume na frase: “Senta-te na última fila”. Por estes dias, o clima pré e pós eleitoral fez abundar egos, soberba e arrogância na praça: Desde apodar parceiros políticos de “empecilhos”, ou colocar-se em bicos de pés no patamar de apenas três deputados e exigir ser presidente de 47, ignorando preceitos parlamentares; há ainda quem da patética ignorância vista como “a minha grande e inigualável sabedoria”, ameace ainda mais instabilidade para o mundo. Talvez faça falta a leitura do evangelho, segundo S. Lucas...

Não surpreende mais esta etapa da vida do agora justamente nomeado Cardeal Dom José Tolentino Mendonça. Fazem falta, à Igreja e ao Mundo, a sua sábia humildade, a capacidade da simplicidade, da interpelação, do necessário questionamento. Para que se cumpra a dedicatória escrita por ele a uma pessoa, num dos seus livros: “Para que pensar seja uma forma de esperança”.

Júlia Caré

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