Insanidade virtual

Pouco do que dizemos entre amigos sobrevive ao escrutínio maldoso das partes interessadas, à partilha, repesca, reprodução e distorção da máquina infernal das redes sociais

10 Fev 2019 / 02:00 H.

A História e a experiência do século XX alertou-nos, e bem, para a ameaças totalitárias do Estado.

No entanto não estamos, ainda, treinados para detectar essa ameaça quando ela nos chega da sociedade. Muito menos para aceitar que vivemos numa sociedade de vigilância, onde, se não somos vigiados por câmaras colocadas pelo Grande Irmão, vivemos pelo menos em permanente risco de - protegidos por leis de 1966 - nos estrearmos num filme cómico realizado por um adolescente aborrecido, em exibição perpétua nas salas da internet.

Não é só o risco de sermos humilhados porque parámos mal o carro. O acesso a estas tecnologias por todos funciona, também, como um mecanismo de controlo, que cria ou reforça relações de domínio entre pessoas, e confere a cada um a oportunidade de ser um pequeno grande irmão. Essa sensação de vigilância é uma forma de pressão sobre a opinião pública. E, se o que dizemos na praça sempre se distinguiu do que confidenciamos na intimidade, o fosso alargou-se. Pouco do que dizemos entre amigos sobrevive ao escrutínio maldoso das partes interessadas, à partilha, repesca, reprodução e distorção da máquina infernal das redes sociais.

Há nisto vantagens. A máquina é, por exemplo, um potente dissuasor da javardice, ou da pura maldade. Mas existem também desvantagens. Entre elas, a de um espaço público timorato e reservado, estritamente politizado, em que a verdade, ou mesmo o sentimento comum, é sufocado pela pureza ideológica e pelos gritos dos radicais - que, sem a mediação do jornalismo tradicional, comandam a agenda e convidam à polarização.

Chega-se, depois, a semanas como esta, em que o nosso conhecimento empírico parece irrecuperavelmente desavindo com as notícias.

A tragédia do Bairro da Jamaica surge-nos, por exemplo, como um problema de racismo. Mas esse racismo, que existe, parece um capricho junto de outros problemas que o excedem e consomem. Aquelas imagens de desolação não sugeriam a miséria moral do racismo, mas a tragédia social do bairro de lata. Das vidas de crime, de droga, de insurreição e exclusão que conhecemos das comunidades de pescadores, de errantes, de suburbanos, e de outros ostracizados do progresso social. Na Madeira existiram, talvez existam ainda, bairros como o da Jamaica. A cor da pele dos moradores é, na verdade, das poucas coisas que distinguem uns e outros. E merecem, uns e outros, a mesma atenção e critério.

Já a catástrofe venezuelana é-nos apresentada como uma questão geoestratégica. Peripatetices das tentações do petróleo, de intervenção externa, de ambição imperial. Olhando para a Venezuela, porém, não parece faltar a compreensão fina das relações internacionais, mas o acesso aos factos. O tipo de conhecimento que chega, geralmente, ouvindo os venezuelanos luso-descendentes regressados a Portugal. Ou o tipo de conhecimento que chegaria pela televisão, não fossem as sucessivas detenções e ameaças a jornalistas em Caracas. Falta-nos o desprezo por aqueles que, diante da fome, da miséria e dos sofrimentos concretos imputáveis ao Governo de Maduro, atiram a primeira pedra à comunidade internacional.

Por último, os números da violência doméstica foram-nos revelados como uma matéria de política criminal. Discutiu-se na Assembleia. O Primeiro-Ministro afirmou que não o deixavam dormir. Falou-se em desigualdade de género. Reclamam-se novas leis, crime e castigo. Se é imperativo concordar com o alarme, é difícil concordar com o diagnóstico. Quem leia “Levante-se o Réu” (o soberbo relato de audiências de julgamento) de Rui Cardoso Martins, quem navegue no ranço das sentenças nacionais - das que suspendem a pena a violadores comprovados, das invocam o adultério como atenuante de um crime violento, das que aligeiram uma violação pela vítima estar bêbada ou inconsciente -, ou mesmo quem disponha de um bom par de olhos e ouvidos, percebe que o problema é de consciência. Não da lei, mas de quem a interpreta e aplica. Não de ideologia política, mas de formação ética e psicológica. A violência doméstica é fruto de uma cultura, invisível e chocante para a modernidade, precisamente por medrar na intimidade que ela se dedica a desconsiderar e esconder. A chamada da lei é bem-intencionada, mas é também um pedido de absolvição. Afinal, a lei não é problema nosso. Mas a tolerância à violência é.

Este apego às abstracções - à questão racial, às relações internacionais, às soluções jurídicas - é o reflexo de um espaço público degradado. Se a informação é poder, e se o poder corrompe, a transferência do poder mediático para os cidadãos corrompeu-os um bocadinho. Sem árbitros e equilíbrios, a discussão pluralista vai deixando de estar orientada para a descoberta da verdade, e vai evoluindo para um sistema, mais ideológico e menos factual, de disputa de poder entre facções rivais.

Há quem advogue a regulação das redes sociais, como se de uma plataforma jornalística se tratasse.

Mas, nestes dias de realidade virtual, vai servindo por enquanto o dicionário. Que é onde virtual continua a ser sinónimo de “falso”.

Pedro Fontes

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