Horários e Eventos

As festas populares que proliferam por aí não têm obrigatoriamente que ter música até altas horas para serem um sucesso

15 Ago 2019 / 02:00 H.

Esta semana estalou a polémica relativamente aos horários de ruído nos eventos e festivais. Parece que em Porto Santo com o Festival do Petisco de um lado e o Festival Porto Santo Beach Party do outro ninguém dormiu durante alguns dias. Foram várias as queixas de que a música se encontrava excessivamente elevada e que se prolongava pela madrugada dentro impedindo os residentes e turistas de descansar, alterando rotinas e quebrando uma das premissas mais essenciais ao corpo humano. O descanso durante o sono. Ora isto abre novamente a discussão do que são e do que se tornaram as festas populares mas também no que é a usurpação do direito público em horários em que se encontra estipulado por lei ser proibido fazer barulho que altere ritmos ou que incomode quem dele esteja perto.

De facto com a aparição da música eletrónica e com a leviandade e passividade dos nossos governantes as festas foram-se esticando até aquilo que hoje em dia se determina por after-hours ou seja, ainda depois do horário já de si extenso da noite. A mim pessoalmente não me incomoda que cada um faça aquilo que lhe aprouver com o seu tempo. É aliás nos tempos que correm , obrigatoriedade para quem quer abrir uma casa noturna o cuidado a ter com a insonorização ou com a vizinhança, com a localização do espaço e com quem possa incomodar à sua volta. É por isso (e bem ) cada vez mais complicado conseguir licenças de horário alargado e quase impossível quando estes espaços se encontram em zonas residenciais.

O problema é que como em tudo na vida o ser humano adapta-se às regras e arranja sempre uma nova forma de as contornar. E os festivais de música são um bom exemplo. Porque não precisam de licença todo o ano conseguem uma de excepção , licença de ruído temporária que é bem mais fácil de obter e que lhes permite construir a algazarra que bem lhes apetecer que mal dá tempo de alguém reagir e já estão a fazer as malas para ir embora e voltar só no ano seguinte. É por isso que a providência cautelar essa figura jurídica tão em voga nos dias de hoje e que pode suspender uma licença desse tipo, mal tem tempo para ser dirimida uma vez que este tipo de eventos são do estilo toca e foge. O que diga-se em abono da verdade também não me incomoda e vai mais ao encontro do público atual que não quer ir sempre para o mesmo sítio e está sempre à procura de novidades. Há no entanto que perceber duas coisas que são para mim fundamentais.

Primeiro é que estas festas populares que proliferam por aí não têm obrigatoriamente que ter música até altas horas para serem um sucesso. Acho aliás que só desvirtua o conceito da coisa, mais familiar e amistoso passando para um ritual de bebedeiras e desacatos. Acho que é perfeitamente exequível que estas festas sejam desenvolvidas durante o dia e que sim possam ter música ao vivo depois de jantar mas não precisa de ser até às 04:00. Acho que se for até às 24:00 ou 01:00 já é muito bom. Porque é que tem que se correr o risco de chatear quem quer descansar durante vários dias ou meter-se a jeito para desatinos e figuras tontas? Porque é moda? E que tal mudá-la? Em segundo lugar é essencial que quem nos governa legisle para que não termine o entretenimento e a animação mas que este choque o menos possível com os residentes existindo locais próprios e horários que permitam conciliar o descanso com a diversão.

Em Espanha por exemplo, em locais muito procurados pelos mais jovens como Lloret de Mar proibiram-se eventos de rua a partir de certas horas e os locais insonorizados como as discotecas baixaram as licenças das 06:00 para as 04:00. O que aconteceu? As pessoas começaram a sair mais cedo em vez de fazerem tempo a seguir ao jantar, começaram a deitar-se mais cedo e a aproveitar a praia no dia seguinte. Ou seja permitiu que todos convivessem de uma forma minimamente mais civilizada tentando respeitar um pouco mais as vontades de todos. Continua a ser procurado de igual forma por isso o que parecia ser um factor assim tão importante tornou-se algo normal porque as pessoas acabaram por se adaptar. Aqui temos que optar pelo mesmo caminho. O do respeito por todos.

José Paulo do Carmo
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