Hollywood à portuguesa

também não me admiraria ver Carlos Costa nomeado para algum gabinete do Banco Central Europeu

12 Mar 2019 / 02:00 H.

Por vezes dou por mim a pensar que se certos episódios da vida política portuguesa fizessem parte dum filme, a crítica arrasaria a produção por falta de realismo. Se não tivesse acontecido, ninguém acreditaria possível que um administrador de um bansco público, que esteve presente nas reuniões onde se aprovaram créditos ruinosos para o banco, acabe como Governador da entidade reguladora do sector bancário, e quando tudo isto vem a público, tem o desplante de usar um comunicado dessa entidade supervisora para vir dizer que realmente esteve lá, mas que não se tinha apercebido de nada.

Isto é vergonhoso, mas tendo em conta a história recente do Banco de Portugal, realmente não nos deveríamos admirar. O seu antecessor, por exemplo, foi nomeado Vice-Presidente do Banco Central Europeu numa altura em que a instituição a que presidia, era muito boa a emitir Avisos, Instruções e Regulamentos, mas sofria de uma miopia gritante, pois foi incapaz de ver o que se passava no BPN, no BANIF, e no BES. Esta sua clara incapacidade para supervisionar quem deveria, foi premiada com uma nomeação para a vice-presidência do BCE. Claro está que o mérito aqui não é chamado para nada, porque estas escolhas, tanto para o Banco de Portugal como para o Banco Central Europeu, são feitas por via de uma nomeação política e nunca por mérito nem pelas suas competências. Nesta ordem de acontecimentos, também não me admiraria ver Carlos Costa nomeado para algum gabinete do Banco Central Europeu, agora que se vão definir novos mandatos no supervisor europeu do sistema bancário. Numa altura em que tanto se fala na necessidade de se definir a União Bancária, pessoas assim, com visão estratégica apurada e um conhecimento profundo do sistema bancário, farão com certeza, toda a diferença.

Se tudo isto não tivesse consequências, ainda poderíamos tentar esquecer e seguir em frente, mas o problema é que a miopia do supervisor já custou quase 17 mil milhões de euros aos cofres do estado, e ameaça custar ainda mais. Este custo representa quase dois meses da riqueza total que o país é capaz de produzir durante um ano inteiro. É muito, e infelizmente funciona como um travão a qualquer possibilidade de crescimento económico, porque esse dinheiro poderia estar a ser usado para travar o défice primário ou de alguma outra forma para aumentar o investimento e potenciar o crescimento.

A impunidade total é a palavra de ordem. Num qualquer filme de Hollywood, a cena seguinte seria uma operação policial para prender um ou dois banqueiros, com dezenas de paparazzis à porta da sede da instituição à espera de vê-los sair algemados pela porta da frente e depois enviados para um estabelecimento de alta segurança sem qualquer dignidade. Seguir-se-ia o julgamento público com a demissão do presidente da entidade de Reguladora e de Supervisão, e de um ou outro ministro, após serem reveladas escutas ou evidências de que estes sabiam do que se estava a passar, mas preferiram olhar para o lado e fazer de conta que estava tudo bem. Mas a realidade é de facto muito diferente e menos emocionante. Os banqueiros estão presos, mas a viver nas suas mansões com reformas milionárias, enquanto os responsáveis pela entidade reguladora e de supervisão, bem como os políticos que os nomearam, sacodem a água do capote enquanto os danos colaterais das suas falhas, vão engrossando o deficit público.

Os produtores de cinema têm realmente pouca criatividade e esquecem-se que a classe política tem criado ao longo dos anos, uma capa protetora infalível para quase todos ataques da justiça e julgamento popular. Essa proteção confere-lhes uma certa posição dominante, que os fazem perder o medo de serem “castigados” politicamente nas eleições ou impedidos de exercer qualquer outro cargo público. Aprenderam a dominar a arte de nunca admitir responsabilidades, ficando à espera que tudo caia no esquecimento, por um lado porque o eleitor tem uma memória muito curta e por outro lado porque mais cedo o mais tarde, outro escândalo de um qualquer outro partido, irá retirá-los do centro das atenções.

Luís Pedro Branco
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