Golpes e Revoluções

02 Dez 2019 / 02:00 H.

Dizia Napoleão que a história é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo. Talvez por isso, costuma dizer-se que a história é escrita pelos vencedores e que aos vencidos resta a tentação de reescrevê-la. No plano onde se confrontam os partidos de direita e de esquerda, a vontade de reinventar o passado é frequente. Basta visitarmos os momentos de grande transformação da sociedade para percebê-lo. À esquerda só existem revoluções – populares, progressistas e justas. Tudo o resto são golpes. E os exemplos são muitos. Em Cuba, Batista chegou ao poder através de um golpe, mas Fidel Castro fê-lo com uma revolução. Na Venezuela, Chávez tentou derrubar um presidente com uma revolução e foi derrubado (por algumas horas) por um golpe. No Brasil, a queda de Dilma foi golpe, mas a eleição de Lula foi revolução. Na Bolívia, o governo de Evo Morales era revolucionário e a sua fraude eleitoral foi um golpe. Mas não se pense que a esquerda revisionista só existe na América Latina. Na verdade, está bem viva entre nós. Esqueceu-se, o leitor, que o 25 de Abril foi revolução e o 25 de Novembro golpe? Ou terá sido o contrário? Uma coisa é certa, os factos do dia 25 de Novembro de 1975 são, possivelmente, o episódio mais esquecido da nossa história recente. Ou, se calhar, o mais mal-entendido. Evitando um relato histórico do que sucedeu, naquele dia confrontaram-se dois caminhos para Portugal: a via revolucionária e a via da democracia eleitoral. De um lado a extrema-esquerda e do outro PS, PSD e CDS. Hoje parece uma aliança improvável, mas na altura – à esquerda – nem todos achavam que as eleições eram essenciais a um regime democrático. O que acabou a 25 de Novembro não foi o 25 de Abril. Nesse dia acabaram as ocupações, as nacionalizações, a tentativa de silenciamento de jornais ou a legalização de um único sindicato nacional. Talvez por isso alguns querem relegar o 25 de Novembro para nota de rodapé da história, ou pior, a subverter o seu verdadeiro significado. Porque querem esconder o país em que tentaram transformar Portugal ao longo do Verão de 1975. Não podemos fazer de conta que isto não aconteceu. Não podemos deixar que aquele dia seja esquecido. Se festejamos o 25 de Abril, porque deixámos de celebrar o 25 de Novembro?

João Paulo Marques
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