‘Familygate’, impostos e escuridão

14 Abr 2019 / 02:00 H.

1. Nas últimas semanas o país tem estado suspenso em torno do ‘Familygate’. Todos os dias surge uma novidade, a nomeação de algum familiar directo de um governante, de um primo no gabinete. A discussão vai longa e até o Presidente da República tem contribuído para o seu arrastamento, sugerindo alterações à lei em doses generosas. A questão é importante para que a democracia não se torne refém de um grupo de amigos e de famílias, o que na realidade já acontece de uma forma ou de outra. Mas há mais vida para além desta polémica, lançada no período crítico de um ano eleitoral. Os mais experimentados sabem que não há coincidências e que os aparelhos partidários são pródigos em descobrir, de forma ardilosa, o melhor timing para ofuscar uma boa medida lançada pelo governo. O país não pode ficar suspenso da discussão, muitas vezes inócua, sobre uma telenovela que se arrasta indefinidamente. Que venha a lei que acabe com a pouca vergonha.

Se o ‘familygate’ está a incendiar o país, por cá e a antecipar a semana pascal, mais calma na actividade política, quase tudo gira em torno do caso Rafael Macedo. Como se os problemas do sector começassem e acabassem na luta do especialista. Foi assim na comissão parlamentar de inquérito e é assim em quase todas as intervenções públicas dos responsáveis pela área. Ou há dados novos relevantes ou deixe-se a justiça actuar, criando condições para melhorar a prestação dos cuidados à população carenciada, porque essa, sim, sente na pele as deficiências do sistema.

2. Apesar das boas medidas que devolvem algum poder de compra às pessoas e à entrada em vigor dos novos passes sociais (veremos o impacto que estão ou não a alcançar), a tributação em Portugal continua acima da média dos países da OCDE.

Apesar do alívio dos impostos, ainda não conseguimos recuperar do momento pré-troika. O monumental aumento dos impostos permanece, não nos iludamos, dificultando-nos a vida.

De acordo com a OCDE depois de somados os impostos e as contribuições para a Segurança Social de empregados e empregadores, e descontados todos os benefícios e transferências do Estado, o peso sobre o custo salarial total do trabalhador atinge em Portugal quase 41%. O valor desceu 0,7 pontos percentuais (de 41,4 em 2017, para 40,7 em 2018), e é agora a 14.ª mais alta de entre os 36 países da OCDE.

3. Há um grupo de católicos saudosista de um passado longínquo e turvo que defende o regresso aos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II, que veio abrir as janelas da igreja ao mundo. Esse grupo, que vai ganhando adeptos aqui e ali, projecta uma instituição representada por padres que celebram as missas de costas para os fiéis e em latim.

Defendem o rito antigo, onde as mulheres surgem de véu na cabeça, nas designadas missas tridentinas.

A Fraternidade Sacerdotal S. Pio X foi fundada por Marcel Lefebvre, arcebispo francês, que se opôs às reformas da Igreja Católica e que chegou a ser excomungado pelo Papa João Paulo II. É contra a liberdade religiosa e o ecumenismo. Recentemente (ver reportagem nesta edição), um padre da congregação esteve na Madeira e celebrou algumas missas, procurando captar simpatizantes para a sua causa. O novo bispo do Funchal, contudo, não vê com bons olhos a proliferação desse género de pregação à moda antiga. E faz muito bem.

Cada pessoa é livre de escolher o que mais lhe interessar, o que mais vá ao encontro da sua fé, mas numa época de tantos desafios para a Igreja Católica, marcada pelo esforço de mudança protagonizado pelo Papa Francisco, devem os fiéis perder tempo com nostalgias inconsequentes, que não acrescentam nenhuma mais-valia e que advogam o retorno a tempos tenebrosos, centralistas, que promovem o carreirismo eclesiástico? O que precisamos é de um Concílio Vaticano III.

Roberto Ferreira
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